Título: UMA REVOLUÇÃO FEITA NAS URNAS DO ALTIPLANO
Autor: Janaína Figueiredo
Fonte: O Globo, 20/12/2005, O Mundo, p. 28

LA PAZ. Na visão de analistas bolivianos, a vitória de Evo Morales nas urnas representa o início de uma nova era para o país, um fato histórico da maior importância, comparável à Revolução de 1952. A Bolívia, depois do México e antes de Cuba, foi cenário de uma profunda revolução social, uma das mais importantes do século passado. Ela desintegrou as Forças Armadas e substituiu as instituições militares por milícias populares. Nacionalizou as minas de estanho, implementou uma reforma agrária e deu aos indígenas - ampla maioria da população - os mesmos direitos, como o de votar, conferidos aos demais cidadãos.

- Se Evo Morales conseguir realizar todas as reformas que pretende, seu governo poderia superar a Revolução de 52. Nosso principal objetivo hoje, como país, é terminar com o racismo que continua sendo muito forte entre os bolivianos - disse ao GLOBO o professor Roger Cortéz, da Universidade de La Paz.

Segundo ele, "como em 1952, os grupos dominantes - uma pequena elite que nas últimas décadas mandou no país - perderam o poder nas urnas. Triunfou um bloco social de enorme fortaleza". O movimento de 1952 foi uma reação dos trabalhadores e de uma parcela dos militares e da polícia ao golpe das oligarquias e do Exército que impediu o líder do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), Víctor Paz Estenssoro, de assumir a Presidência.

- A meu ver, o mais importante da Revolução de 1952 foi o reconhecimento dos indígenas, que antes deviam submeter-se a um regime feudal. Foi o início da libertação das comunidades indígenas - afirmou Cortéz.

A revolução pretendida pelo Movimento ao Socialismo (MAS), esclareceu o analista boliviano, deverá reformar o Estado, conceder mais poder aos indígenas, descentralizar as decisões políticas dando mais força aos poderes departamentais (das províncias) e reestruturar as Forças Armadas.

- Em 1952 a revolução foi protagonizada pela classe média, pelos trabalhadores e pelo MNR. Hoje temos um líder indígena, um homem que concentrará muito poder - enfatizou o analista boliviano. (J.F.)