Título: 'Não conseguiremos atender a todas as demandas dos movimentos sociais'
Autor: Janaína Figueiredo
Fonte: O Globo, 20/12/2005, O Mundo, p. 28

LA PAZ. Nos corredores do comitê eleitoral do Movimento ao Socialismo (MAS), o clima era de euforia. Partidários de Evo Morales não se cansavam de analisar os números de uma eleição histórica para o país e para o MAS, fundado há dez anos pelo líder cocaleiro. "Foi um resultado excepcional. Agora temos um enorme desafio pela frente", disse Juan Ramón Quintana, assessor do Comitê Executivo Nacional do MAS e um dos principais colaboradores do presidente eleito.

A vitória de Evo Morales foi possível, em grande medida, graças ao apoio dos movimentos sociais que nos últimos anos protagonizaram centenas de protestos no país. Como fará o novo governo para conviver com esses movimentos?

JUAN RAMÓN QUINTANA: Este será nosso maior desafio, porque o MAS hoje é respaldado por esses movimentos. É claro que isso representa uma ameaça, já que muitas lideranças sociais estão vinculadas aos velhos partidos políticos, que certamente tentarão boicotar o novo governo. O problema é que por mais empenho que mostremos, não conseguiremos atender a todas as demandas dos movimentos sociais de forma imediata, e a grande ameaça é esses movimentos que hoje nos apóiam se unirem a partidos tradicionais, inimigos do MAS, para tentar nos derrubar. Os movimentos sociais estão muito fragmentados e isso também cria um cenário complicado. Mas está claro que são os únicos capazes de construir uma oposição real ao governo do MAS.

O partido do governo não terá maioria no Congresso.

QUINTANA: Sim, mas essa oposição é irrelevante. A oposição no Congresso, a aliança Poder Democrático e Social (Podemos) do ex-presidente Jorge Quiroga, não representa uma oposição real. Trata-se apenas de uma soma de interesses individuais que hoje estão unidos mas amanhã poderiam se separar. Nosso projeto como governo será reforçar a gestão pública, criar emprego, gerar capacidade produtiva. E para isso teremos que reforçar a aliança com todos os setores sociais.

Quais serão os principais aliados do novo governo?

QUINTANA: Brasil, Argentina, os países da União Européia, China e Japão.

O presidente eleito está avaliando a possibilidade de visitar o Brasil antes da posse?

QUINTANA: Bem, sim, esta seria uma ótima idéia. Temos muito a conversar com o governo brasileiro e com as autoridades da Petrobras. Queremos explicar bem o que vamos fazer no setor de hidrocarbonetos, qual será nossa política, e está claro que nosso principal sócio será a Petrobras. Mas a agenda com o Brasil também inclui questões como a segurança em nossas fronteiras e a defesa do meio ambiente. O Brasil é nosso principal sócio comercial e nosso sócio estratégico.

A Bolívia tem intenções de se tornar membro do Mercosul?

QUINTANA: Está em nossos planos, sim. Vamos ver como isso pode ser materializado. Mas seria importante, sobretudo, para compensar a falta de um acordo comercial com os EUA, alternativa que hoje descartamos. (Janaína Figueiredo)