Título: VARIG TEM TRÊS SEMANAS DE FÔLEGO
Autor: José Meirelles Passos/Érica Ribeiro
Fonte: O Globo, 22/12/2005, Economia, p. 35

Corte de NY dá prazo até 13 de janeiro para empresa pagar a credores dos EUA

Ao final de duas horas e meia de uma tensa audiência, no Tribunal de Falências do Distrito Sul de Nova York, a Varig obteve no início da tarde de ontem mais três semanas de trégua para acertar sua dívida com os credores americanos da companhia. O prazo, que vencia ontem, foi estendido até o próximo dia 13 de janeiro, sendo que um dia antes o devedor e credores devem se apresentar para uma nova audiência no mesmo local. Com a decisão, as empresas de leasing continuam impedidas de retomar aviões da Varig - se recebessem sinal verde ontem, poderiam arrestar até 40 aeronaves.

A audiência de ontem foi atípica: o juiz Robert Drain, que cuida do caso, não estava fisicamente presente. Devido à greve dos transportes públicos, que provocou o caos no trânsito de Nova York pelo segundo dia consecutivo, o magistrado fez a audiência por meio de uma videoconferência.

Sentados diante de um televisor de 25 polegadas, representantes da Varig e de cinco de seus credores viam o juiz Drain no escritório de sua casa, e conversavam com ele. Depois de assistir a uma seqüência de ásperos diálogos entre os credores e o presidente da Varig, Marcelo Bottini, o magistrado decidiu dar uma nova chance à empresa brasileira, estabelecendo três condições para isso.

-- Simpatizo com as queixas dos arrendadores de aviões, mas, apesar disso, estenderei até o próximo dia 13 de janeiro a liminar que lhes dá tempo (à Varig) de resolver os seus problemas financeiros. Não acredito que a Varig esteja discriminando esses credores -Ö disse o juiz, derrubando uma das teses dos queixosos.

Bottini, que se mostrara nervoso em alguns momentos da audiência, saiu do tribunal aliviado:

- Essa decisão nos dá mais fôlego. Para nós o mais importante é aprovar o plano de recuperação da empresa e pagar aos credores. Agora começa o plano de trazer os investidores.

Empresa pagará US$33,3 milhões

Drain disse que a sua decisão implicava que a Varig pague "o mais tardar até o próximo dia 28" uma parcela de US$5 milhões a seus credores - proprietários ou arrendadores de aviões. A segunda condição é a de que a Varig entregue também a eles US$8,3 milhões que estão depositados numa conta especial do JP Morgan, referentes a uma apropriação indébita - de recebíveis da Varig - que tinha sido feita pela Gecas, subsidiária da General Electric (GE), uma das credoras da companhia aérea.

Esse volume foi liberado ontem pelo juiz e a Varig deve repassá-lo aos credores em no máximo 48 horas depois que o JP Morgan deixar o dinheiro disponível. A terceira condição imposta foi a de que a Varig use três quartos dos recebíveis que deverão ser creditados à empresa em breve para pagar aos credores até o dia 13 de janeiro. Isso significará mais US$15 milhões para os credores. A companhia aérea também terá de utilizar o um quarto restante (US$5 milhões) em manutenção das aeronaves pertencentes a esses credores e usadas pela companhia.

Segundo Bottini, além da dívida acumulada até ontem - US$44 milhões - a Varig estará devendo mais US$12 milhões aos arrendadores até o próximo dia 12 de janeiro. Um total, portanto, de US$56 milhões. Descontando US$5 milhões depositados ontem mesmo pela companhia, e mais os pagamentos estipulados na audiência de ontem pelo juiz, até lá a empresa deverá ter pago US$33,3 milhões. Restarão US$22,7 milhões, cujo pagamento será resolvido na audiência de 12 de janeiro em Nova York.

A Varig ingressou na nova Lei de Falências em junho e, desde então, enfrenta a pressão das empresas de leasing. No início de novembro, a companhia aérea portuguesa TAP, por meio de uma sociedade de propósito específico com investidores do Brasil e de Macau, comprou, por US$62 milhões, as empresas VarigLog e Varig Engenharia e Manutenção (VEM). O negócio teve financiamento do BNDES. O dinheiro foi usado para pagar as empresas de leasing nos EUA e evitar o arresto dos aviões.

Na segunda-feira, em uma tumultuada assembléia no Rio, os credores da Varig aprovaram um plano de recuperação e rejeitaram a proposta da Docas Investimentos, de Nelson Tanure, de comprar o controle da FRBPar - a empresa de participações da Fundação Ruben Berta (FRB) que é dona da Varig. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) não considera a assembléia válida, porque no domingo o presidente da corte, ministro Edson Vidigal, concedeu uma liminar para suspender a reunião.

COLABOROU Erica Ribeiro, do Rio

Sabatina e constrangimento em Nova York

Presidente da Varig é pressionado e ouve queixas de credores em uma reunião tensa

NOVA YORK. A maior parte da audiência de ontem foi marcada por um intenso, às vezes ríspido, diálogo entre o advogado da Ansett Worldwide Aviation, Sheldon Solow, e o presidente da Varig, Marcelo Bottini - convocado ao pódio para ouvir as queixas dos credores e explicar como a empresa pretendia liquidar os atrasados. Entre as reclamações, Solow fez uma grave acusação à Varig. Segundo ele, dos 14 aviões que a Ansett arrendou à companhia, cinco estariam no chão, sendo canibalizados pela empresa aérea brasileira, com seus motores e peças sendo utilizados em outros jatos.

O advogado também pressionou Bottini quanto à situação financeira da Varig, tentando provar que ela não tem caixa suficiente sequer para cuidar da manutenção dos aviões que vem utilizando. Quando Bottini disse que aguardava a possibilidade de um acordo com o banco português Efisa, com a companhia aérea portuguesa TAP e outros investidores, Solow atacou:

- Isso é meramente uma proposta, não?

- Não. É um compromisso de negociar - disse Bottini.

Solow revidou:

-- Então não é um negócio fechado, não?

Bottini, corado de nervosismo, teve de admitir que não era. Solow, então, tratou de colocá-lo contra a parede, mencionando o fluxo de caixa da Varig, dizendo que era insuficiente para sequer cuidar da manutenção dos aviões:

- A Varig diz que colocará todas as aeronaves em operação até 8 de janeiro, mas não tem dinheiro suficiente para isso ainda, certo?

Bottini disse que, de fato, ainda não tinha os fundos necessários para isso. E Solow insistiu:

- E então, o que farão?

- Encontraremos um jeito, vamos obter esse dinheiro - respondeu Bottini, sem esclarecer de onde ele viria.

Solow arrematou:

- Se não aparecer uma proposta viável (de financiamento ou investimento), a Varig tem como resolver seus problemas?

- Não, senhor - admitiu Bottini, visivelmente consternado.

- E o fluxo de caixa, como está? O senhor checou quanto tinha em caixa ontem? - martelou Solow, mais incisivo ainda.

Bottini disse que não. Depois reconsiderou e disse que sim. Solow quis saber qual era a quantia. O executivo desconversou:

- Trata-se de uma informação confidencial - disse ele, embora mais tarde o advogado da Varig, Rick Antonoff, tenha dito ao juiz que a empresa semanalmente informa aos credores seu fluxo de caixa.

De volta a um dos bancos do salão de audiências, Bottini retiraria o lenço do bolso várias vezes para enxugar o rosto, quando Solow apresentou sua argumentação final ao juiz.

- O dinheiro prometido (cerca de US$40 milhões devidos ontem) nunca surgiu. Temos apenas propostas de investimento na empresa e não compromisso. Não nos dizem quando vão nos pagar. Não nos dizem nada sobre os aviões, não informam sequer onde estão. Não nos dizem onde estão as peças das aeronaves. O que sabemos é que muitas delas estão no chão, deteriorando-se, servindo de peças para outros aviões.

Quando, no fim, o juiz Robert Drain decidiu estender por mais três semanas o prazo para a Varig regularizar sua situação com os credores americanos, Bottini explodiu, aliviado. Virando para o banco de trás, onde estava Bruno Pinto da Rocha, advogado que representava os funcionários da Varig, Bottini, soltou sorridente um palavrão em voz baixa. (J.M.P.)

Inclui quadro: "A crise na companhia aérea" [A NEGOCIAÇÃO COM OS CREDORES AMERICANOS / A CRONOLOGIA DA CRISE]