Título: FRANCESES REJEITAM CAPITALISMO, MAS NÃO ABREM MÃO DO CONSUMO DE LUXO
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 25/12/2005, Economia, p. 24
Pesquisa na França revela que 51% dos entrevistados preferem o socialismo
PARIS. Para um país que vive um verdadeiro culto à tutela do Estado, o resultado da pesquisa não deveria surpreender: uma sondagem feita pelo LH2 para o jornal "Libération" revelou que dois terços dos franceses rejeitam o capitalismo. Quando a globalização, baseada no livre mercado, parece dominar o mundo, são os franceses que têm a voz dissonante: 51% preferem o socialismo.
A rica e capitalista França estaria então se tornando marxista? Nem de longe. Basta andar pelas ruas de Paris e ver como o capitalismo prospera e os franceses consomem com avidez bens supérfluos e luxuosos. O fosso entre o discurso e a prática foi rapidamente revelado quando a EDF - gigante estatal do setor elétrico - abriu seu capital na bolsa, mês passado: os assalariados correram para comprar as ações, apesar dos protestos violentos nas ruas contra sua privatização, que acabaram antecedendo os confrontos raciais na periferia de Paris.
Foram os socialistas que iniciaram o processo mais radical de privatizações e abertura dos mercados, em 1983, lembra Elie Cohen, diretor de pesquisa da Fundação Nacional de Ciências Políticas e autor do livro "A nova era do capitalismo". Mas fizeram isso mantendo o discurso dúbio: de que, no fundo, só o Estado protege.
- Então, temos uma esquerda liberal, mas que não se afirma como tal. E temos uma direita estatizante, que não é liberal. Os franceses não entendem o que acontece. Eles vêem o mau funcionamento do sistema (desemprego, desindustrialização e déficits) e começam a atribuir isso ao exterior - disse.
Para o francês, o Estado é um 'regulador benevolente'
A pesquisa revela que o nível de rejeição ao capitalismo é quase idêntico em várias categorias: profissionais liberais (61,7%), assalariados (68,4%) e operários (69,8%). Mas é só no discurso que os franceses destoam. Hoje, 37,5% do capital das empresas francesas cotadas na Bolsa de Paris estão nas mãos de investidores estrangeiros. Isso, como resultado da liberalização dos socialistas. É mais que todos os outros países europeus, que os EUA ou o Japão, diz Cohen.
- Os franceses têm a cultura do Estado. Acham que o Estado é a solução, e não o problema, que representa o interesse geral, de racionalidade superior, e um regulador benevolente da economia, apesar dos escândalos (de corrupção) do passado. É uma concepção que não existe em outros países.
Na França, a direita, tradicionalmente capitalista e ultraliberal em outros países, é o grupo social que mais hesita.
- A direita aqui não é verdadeiramente liberal. Nunca tivemos uma verdadeira experiência de direita liberal como foi o caso na Inglaterra, com Margareth Thatcher - afirma Jean Peyrelevade, ex-presidente do banco Crédit Lyonnais e homem poderoso durante o governo socialista francês.
O fato é que as sucessivas crises do capitalismo, com escândalos como os casos Enron, WorldCom e outros, foram digeridas rapidamente nos países anglo-saxões. Mas na França, não. São os jovens de 18 a 34 anos os que mais se opõem ao sistema capitalista, quase tanto quanto a geração que viveu o confronto entre comunistas e capitalistas.
Isso não surpreende Peyrelevade. A história da França, segundo ele, explica o comportamento atual. A esquerda francesa foi marcada por movimentos revolucionários. Primeiro, pela Revolução Francesa, depois por revoluções operárias durante todo o século XIX (1830, 1848, 1870), explica. No momento em que se imaginou que ela iria desaparecer, aconteceu a revolução comunista russa de 1917. E hoje?
- O que vemos hoje na opinião pública francesa é o anticapitalismo, sem que ela saiba o que isso é. Se você pedir às pessoas na rua uma definição do capital, não terá resposta - diz Peyrelevade, para quem o anticapitalismo francês não passa de um resquício da velha tentação da revolução.
- O problema é que ninguém, à esquerda ou à direita, explica aos franceses que a globalização é positiva. Este sentimento francês contra a globalização é o desespero em relação a um mundo que eles não entendem e a um Estado que sentem que está em dificuldade, mas que não querem abandonar - di z Cohen.
Peyrelevade, porém, chama atenção para os excessos do capitalismo. Ele acaba de publicar um livro "Capitalismo total", onde denuncia o poder sem limites dos acionistas e defende uma melhor divisão entre lucro e salários:
- Não sou anticapitalista. Não acho que haja modelo alternativo. O que digo é que o modelo, tal como ele se desenvolve atualmente, que é o modelo americano, comporta um tal desequilíbrio potencial que não é sustentável. Haverá necessidade de ajustes e é melhor fazê-los antes da crise.
Má distribuição da riqueza ameaçaria o sistema
Não é o único. Patrick Artus, co-autor com a jornalista Marie-Paule Virand do livro "O capitalismo está se autodestruindo?", conclui que esse modelo está condenado à autodestruição, devido ao desequilíbrio da distribuição da riqueza gerada.
Cohen contesta essas críticas. Em seu livro diz que as crises nos últimos dez anos não fizeram ruir o capitalismo: o mundo macroeconômico, diz, está mais preparado para absorver choques hoje.
"Os franceses têm a cultura do Estado. Acham que o Estado é a solução, e não o problema"
ELIE COHEN
Cientista político