Título: A NOVA ONDA DE ESQUERDA NA AMÉRICA DO SUL
Autor: Janaína Figueiredo
Fonte: O Globo, 25/12/2005, O Mundo, p. 28
Vitória de Evo Morales na Bolívia ressalta o número de vitórias de presidentes socialistas no continente
BUENOS AIRES. A vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais da Bolívia fortalece o que vem sendo considerada uma onda esquerdista na América do Sul. A ala mais radical desse fenômeno político - ainda mais significativo porque acontece anos depois de violentas ditaduras - tem como expoente o presidente Hugo Chávez, da Venezuela.
"Um populista com muito dinheiro no bolso", afirmam funcionários do Departamento de Estado americano, em referência aos petrodólares usados por Chávez para financiar a "diplomacia do petróleo", que inclui a compras de bônus das dívidas externas de Argentina e Equador e a venda de petróleo a preços subsidiados a países do Caribe. Um de seus principais aliados e clientes é Fidel Castro, presidente de Cuba.
Casa Branca considera Fidel e Chávez desestabilizadores
Em Washington a dupla é vista como desestabilizadora. Mas com ela convivem e trabalham presidentes de viés esquerdista mais moderado, como o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o chileno Ricardo Lagos e o uruguaio Tabaré Vázquez. Nem por isso deixam de ser parte dessa onda, cuja vocação, segundo analistas, é agrupar modelos diferentes que acabam coincidindo em suas relações com o capitalismo.
A grande incógnita é saber em que direção Evo Morales, o primeiro indígena presidente da Bolívia, fixará o seu rumo. Em apenas dez anos, o líder dos plantadores de folhas de coca e do Movimento ao Socialismo (MAS) construiu uma carreira política que se mostrou capaz de tirar do poder partidos tradicionais com raízes numa história de elites e quartéis.
A eleição do novo presidente boliviano despertou enorme expectativa entre intelectuais sul-americanos, entre eles o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Perguntado sobre o triunfo do MAS nas urnas, ele respondeu ao GLOBO com um poema dedicado a Morales (reproduzido acima).
Na visão de analistas sul-americanos, o continente está produzindo diferentes modelos esquerdistas, que têm como denominador comum uma política externa que vai na contramão dos interesses da Casa Branca.
- Os governos latino-americanos têm uma política externa que busca isolá-los dos EUA e construir Estados fortes em busca da recuperação de protagonismos, sobretudo em questões sociais - explicou o venezuelano Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela. - Cuba seria um extremo, já que praticamente não existe espaço para a propriedade privada. O Chile seria o outro extremo, pois implementou um modelo capitalista moderno. Chávez, por exemplo, está mais próximo de Cuba.
Crise de partidos contribui com fenômeno
Para Romero, ainda é cedo para dizer se Evo será parte de um triângulo esquerdista mais duro, junto com Chávez e Fidel.
- Não podemos dizer se haverá um eixo Havana-Caracas-La Paz, isso ainda deve ser observado com cautela, embora Chávez tenha dito que contribuiu para a vitória de Morales. Ele considera que o boliviano é seu discípulo e será peça fundamental em seu projeto de poder. Mas ainda é cedo para dizer se Evo é ou não produto de um laboratório venezuelano - argumentou o analista venezuelano.
A crise em que estão mergulhados os partidos tradicionais sul-americanos contribuiu com o surgimento de fenômenos como Morales, avaliou a professora boliviana Ximena Costa, da Universidade Maior de San Andrés
- Em geral, na América Latina os partidos tradicionais perderam legitimidade e isso permitiu o crescimento de atores sociais como o MAS. No caso da Bolívia estamos falando de uma esquerda que se articulou em função de movimentos sociais e étnicos, essa é a grande novidade - assegurou Costa. - A vitória de Evo terá impacto internacional, porque historicamente a Bolívia sempre se antecipou a mudanças na América Latina, primeiro com a revolução de 1952, depois com a ditadura. Também fomos os primeiros que implementamos políticas neoliberais no continente.
Em 2006, Peru, Equador, Colômbia, Brasil e México elegerão novos presidentes. Resta saber qual será o perfil dos novos governantes latino-americanos. No caso do México, por exemplo, o favorito é Andrés Manuel López Obrador, do partido Revolucionário Democrático, dissidência de esquerda do velho Partido Revolucionário Institucional (PRI), que durante décadas exerceu o monopólio do poder. López Obrador é prefeito da capital e tem boas relações com as outras lideranças populistas, como Chávez.
POEMA PARA EVO MORALES
"Muitas vezes, acordado ou dormindo, me pergunto: Não será coisa de bêbado? Não estarei acreditando contra toda evidência? Acreditando nessas coisas nossas, as tão queridas coisas da vida, contra toda evidência? Teimosias da minha pré-histórica condição, cegueiras da minha dinossáurica vocação? Mas então sempre chega alguma prova, pequenina ou grande, mas prova de que a justiça é ainda possível e que a realidade continua tendo capacidade de surpreender. Isso aconteceu, agora, com essa vitória esmagadora do Evo na Bolívia, a consagração do primeiro presidente índio na História das Américas. E é assim mesmo. Não é coisa de bêbado, não. Ainda tem quem encontre os sóis segredos escondidos na escuridão."
Eduardo Galeano
Legenda da foto: EVO MORALES e Lula posam para foto tirada antes mesmo de o boliviano ser eleito presidente: esquerda no poder