Título: FALSO REMÉDIO
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Fonte: O Globo, 31/12/2005, Opinião, p. 6

Diante do avanço da Aids em todo o mundo, muitos são os que acusam a Igreja de negar o óbvio e de cultivar uma imagem ideal ¿ e irreal ¿ da vida. Afinal, é notório que boa parte dos jovens começa a ter relações sexuais antes do matrimônio; muitos não se casam, e mantêm relações eventuais e transitórias. Em se tratando de saúde pública, no combate às doenças sexualmente transmissíveis e à Aids, o preservativo seria o método mais seguro, barato e de fácil divulgação.

No entanto, certas propagandas soam mais como um convite ao desregramento sexual: ¿Aproveite o carnaval, divirta-se, mas ¿ cuidado! ¿ use camisinha.¿ Lamenta-se o uso precoce do sexo e a gravidez das adolescentes e, de repente, põe-se nas mãos dos menores um pacote de preservativos, como que dizendo: ¿Fiquem bem à vontade, a camisinha garante.¿

O que está em jogo não é a eficácia técnica e profilática dos preservativos. A Igreja defenderia os mesmos princípios, ainda que os preservativos fossem absolutamente seguros. É preciso ter a coragem de dizer a verdade: não existe sociedade estável sem famílias bem constituídas; não há famílias bem constituídas sem fidelidade conjugal; e não há fidelidade conjugal sem uma adequada educação para a vivência da afetividade e da sexualidade. Não se encontra o remédio na camisinha, mas numa mudança de atitude, em que a vida, o amor, o sexo, o matrimônio e a família tenham o lugar que merecem.

Note-se, enfim, que a Igreja se preocupa extraordinariamente com a Aids. O cardeal Cláudio Hummes, chefe da delegação da Santa Sé na ONU, lembrava que ¿a Santa Sé, graças a suas instituições no mundo inteiro, provê 25% da atenção total que se dá às vítimas do HIV/Aids, e assim ela se situa entre os mais assíduos e melhores provedores de atenção às vítimas¿.

DOM DIMAS LARA BARBOSA é bispo auxiliar do Rio de Janeiro.