Título: RÚSSIA ELEVA FORNECIMENTO DE GÁS PARA EUROPA
Autor: Graça Magalhães Ruether
Fonte: O Globo, 03/01/2006, Economia, p. 21

Alemanha, Áustria, Itália e França reclamam de prejuízos com o corte, decidido domingo para afetar a Ucrânia

BERLIM. Depois que os importadores de Alemanha, Áustria, Itália e França reclamaram das grandes perdas decorrentes da redução do fornecimento de gás, a estatal russa Gazprom resolveu aumentar o suprimento, interrompendo assim o boicote do combustível para a Ucrânia, por onde passa um importante gasoduto que liga a Rússia ao Ocidente.

¿ Nós tomamos todas as medidas para abastecer a Europa com gás de acordo com os contratos ¿ disse Alexander Medvedev, vice-presidente da Gazprom, à agência russa RIA Nowosti.

A Gazprom reduziu desde o último domingo a quantidade de gás liberada no gasoduto em direção ao Ocidente, de 480 milhões para 360 milhões de metros cúbicos, tendo como objetivo interromper o fornecimento apenas para a Ucrânia. Mas segundo um representante da empresa, o gás destinado ao Ocidente foi desviado pela Ucrânia.

Medvedev afirmou que a empresa havia liberado mais 95 milhões de metros cúbicos para compensar o gás desviado. O ministro da Energia da Ucrânia, Iwan Platchkov, rebateu porém a acusação, afirmando que o país não bombeou ilegalmente o gás russo, pois está usando gás das suas próprias reservas.

A Rússia, que assume este mês, pela primeira vez, a presidência do G-8, cortou o fornecimento da gás para o país vizinho depois que Kiev se recusou a aceitar um aumento de cerca de 300% no preço.

A Ucrânia tinha direito a um preço especial do gás russo como país membro da antiga União Soviética. Com a mudança do governo em Kiev, no fim do ano passado ¿ quando o candidato preferido do Kremlin, Victor Yanukovitch, perdeu para Victor Yushchenko, pró-Ocidente ¿ começou a pressão para o fim do contrato, que deveria valer até 2009.

Na Alemanha, solidariedade à decisão russa

Enquanto Belarus, país da antiga União Soviética governado por um político pró-Moscou, ainda recebe o gás a preço de amigo (arrendando à Gazprom o oleoduto que passa pelo país), a Ucrânia ¿ que não quer que a Rússia controle o gasoduto que passa por seu território, com medo de perder a soberania nacional ¿ e a Moldávia perderam o privilégio. O presidente da Moldávia, Vladimir Woronin, anunciou ontem que o país não recebe gás natural da Rússia há dois dias, depois de ter recusado um aumento de 100%.

Para o Departamento de Estado dos EUA, a decisão da Rússia de interromper o fornecimento de gás para a Ucrânia cria insegurança no setor de energia e levanta grandes dúvidas sobre o uso desse suprimento para fins políticos.

¿- Como informamos tanto à Rússia quanto à Ucrânia, apoiamos iniciativas de se adotarem preços de mercado para energia, mas acreditamos que isso deve ser introduzido ao longo do tempo, em vez de inesperadamente e unilateralmente ¿ afirmou o porta-voz do Departamento do Estado Sean McCormack.

Na Alemanha, um dos maiores compradores ocidentais do gás russo, o governo reagiu com críticas comedidas. A chanceler federal, Angela Merkel, apelou para que a Rússia e a Ucrânia cheguem a um acordo o mais rapidamente possível.

Já o ministro da economia, Michael Glos, afirmou que a Alemanha, que importa da Rússia 30% do gás consumido no país, só aumentará as suas compras se souber que as entregas vindas do leste são confiáveis. Mas representantes da economia manifestaram absoluta compreensão para com os russos.

Alexander Rahr, da Sociedade Alemã de Politica Externa, advertiu o Ocidente contra uma ¿posição dupla em relação à Rússia¿. Segundo ele, nas negociações com a Rússia para o ingresso do país na OMC, os países ocidentais exigiram que Moscou cobrasse preços de mercado nas exportações de petróleo e de gás.

¿ Um país como a Rússia precisa urgentemente de dinheiro para investir e se tornar de novo uma superpotência ¿ disse o analista alemão, que lembra que há em Moscou um grande medo de que a Ucrânia ingresse na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

(*) Com agências internacionais