Título: Novo nome para comando no Haiti
Autor: Eliane Oliveira/Luiza Damé
Fonte: O Globo, 10/01/2006, O Mundo, p. 24

Brasil indica general para substituir comandante morto de tropas de paz da ONU

O governo brasileiro indicou ontem à ONU o general José Elito Carvalho de Siqueira para substituir no comando das tropas de paz das Nações Unidas no Haiti o general Urano Teixeira da Matta Bacellar - encontrado morto com um tiro na cabeça sábado, em seu quarto de hotel em Porto Príncipe. A escolha de Siqueira foi anunciada pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, durante uma teleconferência com representantes de França, Chile, Canadá, Argentina e Organização dos Estados Americanos.

Durante a conversa, representantes dos países que integram a missão das Nações Unidas no Haiti decidiram apoiar a manutenção do Brasil no comando das forças de paz.

A orientação dada pelos altos funcionários reunidos é de que não sejam aceitas provocações que dificultem ou impeçam a realização das eleições presidenciais no Haiti, marcadas domingo para 7 de fevereiro, depois de quatro adiamentos. Houve ainda consenso de que forças contrárias à missão da ONU atuam no território haitiano e ficou acertada uma reunião entre representantes dos países e autoridades haitianas, nos próximos dias, em Porto Príncipe. O comandante do Exército brasileiro, general Francisco Albuquerque, deverá participar do encontro.

O ministro da Defesa e vice-presidente, José Alencar, expressou preocupação com o estado de ânimo dos cerca de 1.200 soldados brasileiros no Haiti após a morte de seu comandante. Segundo Alencar, o comandante do Exército terá como missão elevar o moral das tropas.

- O objetivo dele é participar desse trabalho para levantar o moral do nosso pessoal que está lá - disse o vice-presidente.

Alencar afirmou que há 1.496 brasileiros no Haiti, entre eles funcionários de uma empresa de engenharia que presta serviços à população.

Preocupação em não demonstrar hesitação

Do Haiti, o comandante Albuquerque irá à sede da ONU, em Nova York, para acelerar o processo de análise da indicação de Elito para o comando das tropas.

A indicação de Elito foi divulgada antes mesmo de o Ministério da Defesa anunciar seu nome. Alencar chegou a afirmar, no início da tarde, que uma decisão sobre o comando das tropas só seria tomada hoje pela manhã. No entanto, na avaliação do Itamaraty, em situações delicadas como esta é preciso ter pressa.

- Não podíamos demonstrar hesitação, já que nosso interesse é continuar no comando das tropas - explicou um graduado diplomata brasileiro.

A intenção do governo brasileiro - que enviou uma missão de oito especialistas ao Haiti - é investigar a morte do comandante das tropas até o fim. Foi o que deixou claro o ministro da Defesa.

- Precisamos participar dessas investigações. Esta é a nossa primeira preocupação. Por isso enviamos técnicos que estão acostumados a esse tipo de trabalho - afirmou.

Diplomatas discutem hoje detalhes da reunião

O ministro reconheceu que há o que chamou de estado de rebeldia no Haiti e disse esperar que o cenário melhore depois das eleições.

- Acredito que todos esses contingentes de todos os países que estão lá poderão voltar - disse o vice-presidente.

Perguntado se este seria um momento para o Brasil recuar, Alencar respondeu:

- Não podemos recuar de forma alguma. Ao contrário. Hoje (ontem) já indicaremos o nome do general que vai substituir (Bacellar). Há um trabalho para que o comando continue no Brasil.

Para o ministro, a morte de Bacellar não afetará o empenho do Brasil em se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

- A morte do general é um acidente que não pode perturbar a vontade do Brasil em fortalecer a ONU. O Brasil tem dimensão política, econômica, territorial, e comportamental. O episódio nada vai perturbar - disse.

Os detalhes da reunião que acontecerá no Haiti - incluindo os temas a serem debatidos - serão discutidos hoje por diplomatas brasileiros e pelo subsecretário de Estado dos EUA para as Américas, Tom Shanon. A vinda de Shanon já estava prevista. Os temas a serem tratados seriam Bolívia e Venezuela, mas deverão perder lugar para a crise no Haiti.

www.oglobo.com.br/mundo

Legenda da foto: O CHEFE DA MISSÃO da ONU no Haiti, Juan Gabriel Valdés, e o general chileno Aldunate diante do caixão de Bacellar, na homenagem ao militar brasileiro morto