Título: MINISTROS DIVERGEM SOBRE AUMENTO DO MÍNIMO
Autor: Gerson Camarotti e Luiza Damé
Fonte: O Globo, 13/01/2006, O País, p. 9

Lula pode fazer concessões sobre o novo valor; Marinho diz que antecipação custaria R$2 bi, Bernardo diz que é possível

BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá, numa decisão política, fazer concessões sobre o valor do novo salário-mínimo que pretende anunciar quinta-feira. Embora o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ex-presidente da CUT, tenha dito ontem que a proposta de antecipar de maio para março o reajuste de R$300 para R$350 custaria R$2 bilhões a mais, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, acenou com a possibilidade da antecipação.

Mesmo ressaltando que a decisão cabe a Lula, Bernardo disse que a reivindicação das centrais sindicais está sendo analisada:

- É claro que é possível antecipar. O assunto ainda não foi levado ao presidente. Na hora que for levado, ele tomará a decisão. Se o presidente tomar a decisão, faremos a adequação orçamentária necessária - disse ele, numa curiosa inversão de papel com o ministro do Trabalho.

Segundo Bernardo, os dados estão sendo levantados para serem apresentados a Lula:

- Temos que fazer as contas para levar ao presidente Lula o impacto da correção do mínimo para R$350. É uma decisão política do presidente, mas ele sempre toma a decisão política levando em conta os números. O custo no Orçamento, o que significa para a Previdência e, principalmente, um reajuste justo para o trabalhador.

Alternativa pode ser R$340 e R$350 só a partir de maio

O relator do Orçamento, deputado Carlito Merss (PT-SC), também apóia a antecipação:

- Não tenho ainda informação de que poderemos antecipar, mas seria ótimo.

Até quinta-feira que vem, quando Lula deve anunciar a decisão, pode ser discutida uma alternativa: em vez de R$350 a partir de março, o governo poderá propor R$340 e R$350 só a partir de maio.

Ontem de manhã, após encontro com o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Merss e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), Marinho afirmou que o impacto mensal dessa antecipação, segundo cálculos do relator do Orçamento, seria de R$1,068 bilhão. Ele disse ainda que é improvável fechar com os sindicatos a correção de 10% na tabela do IR.

- Do jeito que foi formalizado pelas centrais, não é possível. Isso vai gerar um impacto superior a R$2 bilhões (referindo-se à soma dos meses de março e abril de um reajuste para R$350) - disse o ministro.

- Este é um Orçamento bastante apertado - ressaltou Marinho.

O líder do PFL, deputado Rodrigo Maia (RJ), disse que a oposição vai continuar insistindo no maior reajuste possível para o salário-mínimo:

- A vinda do ministro do Trabalho aqui mostra a trapalhado do governo. Ele bateu na porta errada. Devia ter falado com o Planejamento.

Merss rebateu o pefelista e afirmou que a oposição só está mais cautelosa com o valor do mínimo porque acha que pode ganhar as eleições e assumir o governo:

- A oposição é oportunista e hipócrita. Até porque no ano passado eles apresentaram um mínimo de R$384. Tanta cautela é porque a direita acha que vai voltar ao poder.

Merss diz que a correção da tabela do Imposto de Renda deverá ficar em 7%, o que ampliaria de R$1.164 para R$1.245 o limite de isenção. Se o reajuste for de 10%, esse limite iria para R$1.280:

- As demandas existentes já somam R$30 bilhões no Orçamento. Só o reajuste para R$350 já vai representar um impacto de R$4,6 bilhões.

COLABOROU: Isabel Braga

"É claro que é possível antecipar (o reajuste do mínimo). O assunto ainda não foi levado ao presidente. Na hora que for levado, ele tomará a decisão. Se o presidente tomar a decisão, faremos a adequação orçamentária necessária"

PAULO BERNARDO, Ministro do Planejamento

"Do jeito que foi formalizado pelas centrais, não é possível. Isso (a antecipação do reajuste do mínimo para março) vai gerar um impacto superior a R$2 bilhões. Na quinta-feira, o presidente Lula bate o martelo"

LUIZ MARINHO, Ministro do Trabalho

Legenda da foto: MARINHO: "Este é um Orçamento apertado. Quem vai tomar a decisão é o presidente"