Título: EMPREGOS FORMAIS TÊM BAIXO SALÁRIO E A MAIORIA ESTÁ FORA DAS CAPITAIS
Autor: Geralda Doca
Fonte: O Globo, 13/01/2006, Economia, p. 24

Pesquisa da UFRJ/Senai revela que remuneração caiu 20% de 2000 a 2004

BRASÍLIA. A baixa remuneração é a marca dos empregos com carteira assinada criados no Brasil entre 2000 e 2004 - dos quais três em cada quatro estavam fora das capitais. Pesquisa da UFRJ encomendada ao Senai e divulgada ontem mostra que os trabalhadores contratados neste período passaram a receber, em média, 80% dos salários que recebiam seus antecessores. O percentual cai a 70% no segmento de serviços industriais de utilidade pública (distribuidoras de energia e empresas de água e esgoto, por exemplo), que passou por mudanças profundas, especialmente as privatizações.

Conhecida pela elevada rotatividade, na construção civil os admitidos passaram a receber 90% do que ganhavam os dispensados - mas os salários são baixos. O levantamento utilizou os bancos de dados do Ministério do Trabalho - Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

- A expectativa que se tem é que os admitidos recebam menos do que os desligados em qualquer lugar do mundo. Mas o que chama atenção no Brasil é o tamanho da diferença salarial - disse o autor da pesquisa e diretor do Instituto de Economia da UFRJ, João Luiz Sabóia.

Vagas no interior cresceram 23,6% nos últimos anos

Segundo ele, uma das razões para o achatamento da renda é o fato de os empresários estarem praticando a rotatividade de funcionários com a intenção de cortar custo com mão-de-obra.

Dos 4,179 milhões de empregos formais criados entre 2000 e 2004, 60% estão em 50 microrregiões (áreas fora das capitais). Dados que confirmam o peso maior do emprego no interior do país, que cresceu 23,6% entre 1999 e 2004. Nas capitais, a alta foi de 9,5% no período.

As capitais, porém, lideram no valor do salário: a remuneração média no interior corresponde a 1,9 salário-mínimo, enquanto nas regiões metropolitanas, a 2,3 pisos. O movimento também não foi suficiente para alterar o mapa do emprego. As vagas com carteira continuam concentradas nas regiões Sudeste (41,8%) e Sul (33,4%).

Os destaques fora dessas regiões são Manaus, devido à Zona Franca, e algumas cidades do Nordeste e do Centro-Oeste, em função da indústria de alimentos e bebidas, sobretudo a de açúcar e álcool. Entre as 50 microrregiões que mais empregaram, 39 estão localizadas no Sul e Sudeste, sendo que 17 estão em São Paulo, cinco no Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, quatro em Minas, dois no Rio e uma no Espírito Santo.

No ranking das regiões metropolitanas que mais contrataram estão Porto Alegre, São Paulo, Campinas, Curitiba, Manaus e Caxias do Sul. O Rio aparece no 14º lugar, apesar das atividades de extração mineral (petróleo). Segundo Sabóia, o emprego no Rio é difícil porque esse setor, embora pague bons salários, abre poucas vagas.

A pesquisa mostrou que o mercado não abre mais vagas para quem só tem até a 4ª série do ensino fundamental e trabalhadores com mais de 40 anos. Entre 2000 e 2004, foram fechados 128.419 postos ocupados por trabalhadores com quatro anos de estudo e 336.609 cargos exercidos por pessoas com mais de 40 anos. A parcela da população mais privilegiada está entre 18 e 24 anos, com ensino médio (2º grau).

Sabóia destacou que, apesar do saldo positivo, 2005 foi um ano ruim para o emprego por causa do baixo crescimento da economia.

inclui quadro: o mercado de trabalho