Título: LULA CORRE ATRÁS DOS PALANQUES
Autor: Helena Chagas
Fonte: O Globo, 16/01/2006, O País, p. 4
O principal palanque de um presidente candidato fica no Planalto. Mas Lula, com uma coligação até agora raquítica, sabe que não pode ir à luta sem alianças fortes nos estados ¿ e que é pelas beiradas que se come o mingau eleitoral, ainda mais encaroçado do jeito que anda o de 2006.
Aliança boa é a que é forjada de baixo para cima, nas bases. Legal ou informal, branca, preta ou cinzenta, o importante é garantir palanques firmes Brasil afora. Nem que o preço disso seja cristianizar alguns, forçar outros à desistência, lançar laranjas.
É por isso que o presidente, apesar do ar blasé de quem quer dar a impressão de ainda não ter se decidido, já anda se movimentando freneticamente nos bastidores. O alvo principal é, obviamente, o PMDB. Mas até o PMR dos bispos e do vice José Alencar pode entrar na ciranda.
Até agora, o jogo estadual estava em banho-maria, à espera de uma definição sobre o fim da obrigatoriedade da verticalização das alianças. Como são cada vez mais remotas as chances de a regra ser mudada, as forças políticas se organizam num cenário com número menor de candidatos à Presidência e uma profusão de traições e alianças brancas. E os movimentos de bastidores no momento indicam que:
1. Na ordem de preferência dos vices, o PMDB ainda está no topo. Apesar das afirmações em contrário da cúpula governista do PMDB e do próprio presidente Lula, que anda dizendo ser ¿muito natural¿ que o PMDB tenha candidato, ele ainda não jogou a toalha nem perdeu as esperanças de ter um peemedebista na vice, seja Nelson Jobim, Renan Calheiros ou qualquer outro. Sabe que, do jeito que as coisas andam, isso é difícil. A tendência do PMDB é ter candidato próprio, escolhido nas prévias de março, e esse jogo só vira se o presidente da República subir como um foguete nas pesquisas ¿ hipótese, convenhamos, também remota. Ou, quem sabe, oferecer mundos e fundos eleitorais ao partido. Se não, Lula iria de Ciro Gomes, numa coligação formal com o PSB, o que terá que levar o PT a ceder em alguns estados. José Alencar, pelo PMR, é terceira opção, mas não saiu do jogo.
2. Governadores do PMDB vão de Rigotto na prévia para tirar Garotinho do páreo. Há dúvidas quanto à conveniência, para o presidente e seu adversário tucano Serra ou Alckmin, da candidatura Garotinho. O tucanato acha que o ex-governador tira mais votos de Lula. Mas pesquisas indicam que sua presença ameaça a ida de Alckmin para o segundo turno. Entre os caciques peemedebistas, governistas e de oposição, Garotinho é visto com desconfiança. Daí o movimento dos governadores de fecharem apoio à candidatura Rigotto nas prévias. Tirariam Garotinho do cenário, mas teriam candidato próprio para ir até o fim ou para negociar, quem sabe, o vice de Lula lá para junho. O resultado da prévia é uma incógnita, mas há quem diga que os caciques do PMDB unidos jamais serão vencidos.
3. Para ter palanques, o PT tem que ceder. E muito. Por exemplo:
a) São Paulo: tem que engolir Quércia. Diz-se que Orestes Quércia, bem cotado nas pesquisas para governador, joga para o Senado. E que, se o PT tirar Eduardo Suplicy do caminho e fizer uma dobradinha, ainda que informal, com o ex-governador na chapa de Mercadante ou Marta, a coligação nacional com o PMDB fica resolvida. O difícil é fazer.
b) Minas Gerais: o caminho é não brigar com Aécio. O PT deve ter candidato, possivelmente Nilmário Miranda. O PMDB pode ir de Hélio Costa ou fazer coligação com Aécio Neves. E o pragmatismo indica que o PT sacrifique os seus e caia nas graças do governador, que não dará seu palanque a Lula mas pode fazer um certo corpo mole tucano.
c) Rio: Lula pode acabar nos braços de Crivella. O palanque do PT no Rio é frágil. O PMDB de Sérgio Cabral pode acabar junto com o PFL de Cesar e o PSDB. Crivella é hoje do partido de José Alencar...
d) Sacrifício em Pernambuco. O PT tem Humberto Costa, mas, para garantir a coligação nacional com o PSB, pode ser preciso apoiar Eduardo Campos.
e) PMDB do Ceará entre dois amores. O palanque de Lula é o do PSB, que vai lançar o irmão do ministro Ciro Gomes, Cid ¿ o que já vai exigir um enquadramento do PT. O PMDB do ex-ministro das Comunicações Eunício Oliveira, postulante ao Senado, pode fechar com essa chapa ou com a reeleição do tucano Lúcio Alcântara. Quem agradar mais, leva...
PS. Vou dar a vocês uma segunda-feira de descanso. Até 30 de janeiro...