Título: PELA SAÍDA DIPLOMÁTICA
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 18/01/2006, O Mundo, p. 27

As negociações estão chegando, formalmente, ao fim. A iniciativa da UE fracassou. É oficial. Ao retomar o enriquecimento de urânio, os iranianos aparentemente atravessaram o Rubicão. As conversas já vinham morrendo há algum tempo, com o próprio tema em questão obstruindo, cada vez mais, eventuais progressos. O problema fundamental é a falta de confiança entre as elites políticas dos Estados Unidos e as do Irã.

Sem reconhecer esse contexto, o insípido processo no qual nos encontramos faz pouco sentido. Como é possível, por exemplo, que a Coréia do Norte se declare uma potência nuclear sem provocar quase nenhuma reação em Washington, enquanto o Irã se torna uma ameaça à Humanidade ao romper alguns lacres num centro de pesquisa? O problema não é apenas político, mas ideológico. O ex-presidente iraniano Mohammad Khatami entendeu o problema. Daí sua determinação para promover um ¿diálogo das civilizações¿ e ajudar a coalizão em sua guerra contra o Talibã. Mas ele foi recompensado com o ¿eixo do mal¿, que acabou tirando sua política externa dos trilhos.

Os europeus também entenderam o problema. Mostraram-se particularmente temerosos de que a Guerra Fria entre o Irã e os EUA, que se mantinha em banho-maria desde a Revolução Islâmica de 1979, voltasse ao ponto de fervura com o 11 de Setembro. Mas enquanto as tropas se mobilizavam para o Iraque, Teerã dava sinais de que poderia ser mais maleável.

Essa flexibilidade foi aproveitada por Alemanha, Grã-Bretanha e França que, depois da invasão do Iraque, mostravam-se ansiosos para provar que o ¿Velho Continente¿ e a diplomacia podiam funcionar. Os princípios básicos do acordo eram: o Irã abriria suas pesquisas, submetendo-se às orientações do Conselho de Segurança das Nações Unidas e às inspeções. Em troca, os europeus negociariam um acordo permanente para o desenvolvimento de tecnologias nucleares para uso civil.

O sinais iniciais eram positivos, mas o ¿Velho Continente¿ falhou ao avaliar o grau de desconfiança dos falcões americanos e analisou mal os desdobramentos políticos no Irã. Em fevereiro de 2004, os neoconservadores iranianos racharam o Parlamento. E logo ficou claro que o novo Congresso não tinha a menor intenção de ratificar o acordo. A ilusão rompeu-se de vez com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad.

Hoje, os líderes iranianos calculam que podem resistir a sanções (e até a coisas piores), inflamando o fervor nacionalista. Isso, claro, tem o benefício adicional de consolidar um governo linha-dura que, de outra maneira, apoiaria-se em fundações precárias.

A saída diplomática, que ainda está sendo publicamente endossada, deve ser conduzida com mais vigor tanto nos canais públicos quanto privados. Sobretudo, não pode estar voltada para minúcias, mas tentar abarcar a situação como um todo.

Ali Ansari é escritor