Título: UM ENIGMA IRANIANO PARA O OCIDENTE
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 18/01/2006, O Mundo, p. 27

EUA querem descobrir se Ahmadinejad é ameaça ou blefe

Estaria o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, de fato impingindo uma ameaça nuclear ao mundo (especialmente a Israel) sob o argumento de praxe ¿ que busca a tecnologia do setor para fins pacíficos ¿ ou a sua decisão de iniciar o enriquecimento de urânio, alentada por discursos virulentos e incendiários, seria nada mais do que uma exibição para o seu público interno? A dúvida gira insistentemente na cabeça de estrategistas políticos da Casa Branca, alimentados por informes diários das agências de espionagem dos Estados Unidos, e instiga também o raciocínio de analistas especializados em geopolítica.

As opiniões naqueles dois setores e na comunidade internacional estão divididas. Ainda não há consenso sobre a necessidade de se convocar uma sessão especial do conselho da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) no início do próximo mês, para colocar o Irã contra a parede.

E ainda que isso aconteça, não existe garantia de que uma intimidação frontal venha a ser feita. A questão é que a AIEA costuma tomar decisões por consenso e é tido como muito provável que alguns dos 35 países que fazem parte do conselho ¿ como Líbia, Cuba, Síria, Venezuela, Índia e Brasil ¿ não endossariam tal aperto.

Psicólogo para analisar líder

Na falta de um consenso, o caso poderia ser remetido ao Conselho de Segurança da ONU, onde se poderia votar por sanções comerciais ou diplomáticas. Mas, para isso, seria preciso que a maioria dos votos fosse a favor e não houvesse nenhum contra.

Num editorial publicado domingo passado, o jornal ¿New York Times¿ sugeriu que está sendo feita uma tempestade em copo d¿água: ¿O presidente Mahmoud Ahmadinejad e os clérigos que governam o Irã sabem de uma coisa que os líderes ocidentais também conhecem mas não dizem: não há nada que o Ocidente possa fazer, porque o Irã tem uma carta nas mãos que coloca qualquer sanção fora de alcance: o petróleo¿, dizia o artigo, lembrando que o Irã é o segundo maior produtor de petróleo do mundo e tem a segunda maior reserva de gás natural, depois da Rússia.

Em entrevista ao GLOBO, sob a condição de permanecer no anonimato, um funcionário do governo americano contou que os gestos de Ahmadinejad vêm sendo analisados profundamente, inclusive com a ajuda de psicólogos, levando em conta o seu perfil.

Um dos objetivos básicos do governo é determinar o que não passaria de retórica, o quanto há de pragmatismo em suas iniciativas, e o que não passa de ambigüidade.

¿ É preciso, sobretudo, entender como funciona a cabeça de um homem de costumes tão toscos, que diz tantos disparates publicamente e que não age como os governantes em geral, sejam eles democratas ou ditadores ¿ disse a fonte.

Ela se referia claramente ao fato de, apesar de ser o chefe da nação, Ahmadinejad, de 49 anos, manter hábitos humildes forjados ao longo de sua infância e adolescência. Filho de um modesto ferreiro de uma cidadezinha do interior, ele continua vivendo num pequeno apartamento e, embora disponha de limusines, às vezes transita por Teerã, em especial nos fins de semana, ao volante de um carro iraniano que adquiriu há 30 anos. E, como fazia na época em que era prefeito de Teerã (eleito em 2003), em vez de almoçar num salão do palácio, algumas vezes come em seu próprio gabinete um lanche que leva de casa, preparado por sua esposa.

Preocupa, também, o seu passado como chefe das forças especiais da Guarda Revolucionária Islâmica, criada em 1979 e cujo papel político vem crescendo nos últimos anos. Ela controla a indústria de defesa, o desenvolvimento de mísseis estratégicos e também estaria a cargo de um programa nuclear ¿ além de ter uma presença profunda no setor econômico.