Título: POR UMA MULHER NA CASA BRANCA
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 19/01/2006, O Mundo, p. 27

Laura Bush atiça possível candidatura de Condoleezza e democratas apostam em Hillary

Ainda faltam quase três anos para a eleição presidencial dos Estados Unidos, mas já começam a surgir sinais de que a votação poderá ser a mais excitante da História americana. Afinal, se as expectativas e os prognósticos se confirmarem, pela primeira vez o vencedor será uma mulher. E o resultado poderia ser ainda mais surpreendente: a vitória de uma negra.

As duas mais prováveis (ou sonhadas) candidatas americanas relutam em admitir publicamente suas pretensões eleitorais: a senadora democrata Hillary Clinton e a secretária de Estado republicana, Condoleezza Rice. Mas grupos independentes já povoam a internet de manifestos e ¿ devidamente registrados na Comissão Eleitoral Federal ¿ reúnem fundos de campanha com a venda de uma parafernália eleitoral: camisetas, broches, canetas e adesivos.

¿Condi `08¿, lê-se num adesivo exibido em pára-choques de automóveis, materializando uma campanha ainda não oficial, mas que já chegou às ruas. ¿Presidente 2008 ¿ Condi Rice, nós temos um sonho¿, diz outro, reproduzindo uma frase de um lendário discurso do reverendo Martin Luther King, líder da luta contra a discriminação racial nos Estados Unidos.

Há faixas e camisetas inclusive em espanhol. Numa dessas peças se lê ¿Soy Condista!¿. Em outra, está escrito: ¿Viva Condi! Presidente 2008.¿

A oposição democrata também se manifesta: a frase ¿Hillary for President 2008¿ está estampada em adesivos e broches. Um deles proclama, com bom humor, a volta do presidente Bill Clinton em nova encarnação: ¿Bill para Primeira-Dama ¿ 2008.¿

A disputa política que parecia existir apenas na mente dos americanos ganhou impulso nos últimos dias graças a uma intervenção ¿ aparentemente involuntária ¿ da primeira-dama, Laura Bush, e, logo em seguida, do porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan.

Pouco antes de Laura embarcar para a Libéria ¿ onde assistiria à posse da primeira mulher eleita presidente de um país africano, Ellen Sirleaf-Johnson ¿ a rede de TV CNN perguntou-lhe se ela achava que o mesmo poderia acontecer em breve nos Estados Unidos. A primeira-dama respondeu com firmeza:

¿ Acho que isso acontecerá, com toda a certeza.

Quando a repórter perguntou quem ela gostaria de ver na Presidência, a primeira-dama não titubeou:

¿ A doutora Condoleezza Rice. Ela diz que não está concorrendo, mas eu gostaria de vê-la disputando. Ela é magnífica.

Horas depois, acossado por repórteres, McClellan reforçaria a declaração:

¿ Eu evito falar sobre isso porque creio que ela (Laura) já deixou claro o que pensa. Mas tenho minhas próprias idéias sobre o grande trabalho que ela (Condoleezza) poderia fazer (como presidente) ¿ afirmou o porta-voz do presidente George W. Bush.

A própria Condoleezza se disse lisonjeada com os comentários e honrada com o que dissera a primeira-dama. Mas manteve a postura discreta:

¿ Eu sei no que sou boa. Sei o que quero fazer, e não é ser presidente ¿ afirmou.

Muitos americanos não estão convencidos disso. Em especial porque Condoleezza praticamente ecoou uma frase que dissera quando chefiava o Conselho de Segurança Nacional e era cotada para se tornar secretária de Estado ¿ tanto quanto é hoje cotada para se candidatar à Presidência. Ela dizia, na época, o mesmo que declarou novamente dias atrás em entrevista à CNN: gostaria mesmo era de ser presidente da NFL, a liga de futebol americano profissional.

No entanto, analistas como Dick Morris, estrategista político que assessorou Clinton durante 20 anos, acreditam que Condoleezza (com 60% de aprovação popular) é a única pessoa com que os republicanos contam para derrotar Hillary, que, por sua vez, continua sendo a democrata mais cotada:

¿ Esta é uma disputa que Condi pode vencer ¿ afirmou Morris. ¿ Ela representa uma ameaça mortal ao êxito de Hillary. Sem Condi como opositora, Hillary chegará à Casa Branca. Com Condi em seu caminho, Hillary não conseguirá vencer.