Título: DISSUASÃO NUCLEAR À FRANCESA
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 20/01/2006, O Mundo, p. 33

Chirac ameaça usar arsenal atômico para destruir centros de poder de países que atacarem França

No momento em que as potências mundiais ameaçam punir o Irã por suspeitarem que Teerã desenvolve secretamente armas nucleares, o presidente francês, Jacques Chirac, diz que seu país ¿ que tem um arsenal atômico desde os anos 60 ¿ poderá recorrer a ataques nucleares contra ¿centros de poder¿ das nações que usarem o terrorismo ou armas de destruição em massa contra a França.

¿ Os chefes de Estado que recorrerem a meios terroristas contra nós, como todos aqueles que planejem utilizar, de uma maneira ou de outra, armas de destruição em massa, devem compreender que eles estarão expostos a uma resposta dura da nossa parte ¿ disse Chirac, num discurso numa base de submarinos nucleares na ilha Longue, no norte da França, sede do Estado-Maior da Força Estratégica.

Alvos agora serão mais específicos

Chirac disse que esta ¿resposta dura¿ pode ser com armas convencionais ou ¿de uma outra natureza¿: ou seja, nuclear. Mas frisou que terá um alvo específico: o centro de poder de Estados ameaçadores. É uma mudança em relação à política de dissuasão atômica da época da Guerra Fria, que ameaçava destruir cidades inteiras.

¿ A flexibilidade e a capacidade de reação de nossas forças estratégicas nos permitem responder (os ataques) diretamente sobre estes centros de poder, sobre sua capacidade de ação. Todas as nossas forças nucleares foram configuradas neste espírito ¿ afirmou.

Dominique David, especialista do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), diz que o discurso reafirma os pontos essenciais da política de dissuasão nuclear do país. A última vez que Chirac falou no tema foi em 2001. A diferença é que, desta vez, ele foi mais claro sobre como a França está adaptando seu arsenal às novas ameaças. Chirac afirmou que o alvo deixou de ser potências da Guerra Fria, como a Rússia, e passou a ser Estados do Terceiro Mundo, apesar de não ter usado este termo. Nem citou nominalmente os países, mas ficou claro para todos que a nova ameaça vem de Estados que Dominique David classifica de perturbadores, como Irã e Coréia do Norte.

¿ A França se prepara e é preciso que estejamos preparados para qualquer hipótese, calmamente. Mas não há nenhuma paranóia francesa, nem vontade da França de fazer uma lista de Estados perigosos, como fizeram os Estados Unidos com o famoso discurso de George W. Bush sobre o eixo do mal. Em relação à crise iraniana, o discurso (de Chirac) não é dirigido contra o Irã, em particular. Aqui, ninguém acha que o Irã vai atacar a França ¿ assegura o especialista.

Nos anos 1980, o então presidente François Miterrand disse que a França usaria a dissuasão nuclear não apenas no caso de ataque a seu território, mas também no caso de um ataque a aliados, como a Alemanha. Chirac reafirmou este princípio, ao falar dos aliados europeus.

¿ O discurso é mais uma reafirmação da adaptação da doutrina e do material militar francês à realidade atual do que uma revolução. A mensagem é: a política de dissuasão continua pertinente e como a ameaça mudou, e os atores mudaram, o material tem que evoluir com esta mudança ¿ afirma o especialista.

Mudanças ocorrem há dois anos

Com isso Chirac também justifica os gastos franceses de 3 bilhões de euros (R$8,5 bilhões) por ano para manter a política de dissuasão nuclear. A França é uma das potências atômicas mundiais, ao lado de Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, Índia, Paquistão e Israel (este último não reconhece, nem nega, seu status nuclear). Alguns especialistas dizem que a Coréia do Norte poderia ter talvez duas bombas.

Segundo o ¿Le Monde¿, é a primeira vez que o chefe de Estado torna pública a reconfiguração de suas forças nucleares. Dominique David confirma que nos últimos dois anos a França começou a adaptar seu arsenal, por exemplo, equipando seus submarinos com mísseis nucleares mais precisos e menos devastadores. O arsenal francês é hoje estimado em cerca de 350 ogivas nucleares.