Título: O pêndulo se move
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 21/01/2006, O GLOBO, p. 35

A recuperação eleitoral do presidente Lula, revelada pela pesquisa Ibope/IstoÉ, deve alterar alguns jogos eleitorais em curso. Na noite de anteontem, em que foi divulgada pela TV Globo, ela afetou o clima do jantar entre Lula e os senadores do PMDB. ¿Não houve comentários mas estava no ar uma outra vibração¿, conta a senadora Ideli Salvatti, que estava lá. Se a tendência persistir, haverá o estertor dos que consideravam Lula moribundo. E o ambiente político, longe de melhorar, ficará mais envenenado.

Muitas explicações devem haver para o fato de o presidente estar recuperando a posição perdida, de candidato com desempenho superior ao de todos os seus possíveis adversários. Nas pesquisas do final do ano passado ele perdia para o tucano José Serra nas simulações de segundo turno. Nas de primeiro turno também perdia para Serra e em algumas até mesmo para o governador Geraldo Alckmin. O que teria produzido, em tão curto espaço de tempo, mudanças no humor nacional ao ponto de na nova pesquisa Lula aparecer com 35% contra 31% de Serra, e com 38% contra apenas 17% de Geraldo Alckmin? Nas primeiras avaliações dos governistas, a pesquisa captou o esgotamento dos efeitos eleitorais da crise ¿ que no essencial deu ganhos consideráveis à oposição e perdas monumentais para Lula e o PT. Agora, entretanto, a população, cansada de denúncias, de apurações que apresentam sempre mais do mesmo mas não respostas cabais para as perguntas centrais (de onde veio o dinheiro do valerioduto, por exemplo), estaria voltando a avaliar resultados, a perceber o que o governo faz, prestando-lhe mais atenção que nos delitos do PT e dos aliados.

Alguns petistas afirmam ainda que houve uma sensível melhora na comunicação do governo, e não só por conta de manifestações do presidente, que deu uma entrevista a Pedro Bial, do ¿Fantástico¿, no finalzinho do ano, e acaba de fazer um pronunciamento faturando o pagamento da dívida com o FMI, livrando o país de qualquer vínculo com o organismo. A entrevista a Bial produziu muitas críticas mas com ela Lula pode ter alcançado grandes fatias de eleitores decepcionados, e pode ter reconquistado alguns. Ganhou ressonância a disposição do governo para gastar mais este ano, a exemplo do que Lula fez ontem em Queimados (RJ), anunciando a liberação de R$60 milhões para recuperação de um hospital e outras obras.

Mas o trabalho mais eficiente estaria sendo feito pelo substituto de Duda Mendonça, o publicitário João Santana. Está no ar sua primeira campanha institucional, bem diferente das que eram produzidas por Duda. Os novos comerciais são feitos para cada estado, mostrando o que o governo federal tem feito ali, sozinho ou em parceria com prefeituras e governos estaduais. Com isso, pretende-se evitar a apropriação de obras e projetos por adversários e mesmo por aliados que costumam faturar sozinhos as parcerias, costume nacional que já irritava os comunicadores do governo FH. Houve ainda anúncios de impacto, como a operação tapa-buraco nas estradas. As críticas foram muitas, a iniciativa vem com atraso, mas o que todo mundo quer é uma melhora nas condições de tráfego.

A pesquisa feita para a revista ¿IstoÉ¿ não fez simulações de segundo turno nem seria correto, metodologicamente falando, compará-la com pesquisas que constituem séries histórias, como a CNI-Ibope ou a CNT-Sensus. Ainda assim, a última CNI-Ibope, tendo sido feita pelo mesmo instituto, oferece a melhor margem para comparações. Em sua última edição, quem examinou os cortes seccionais pôde observar que Lula e o governo sofreram perdas nos grotões e entre as camadas de menor renda e instrução. Era a crise batendo nas fronteiras sociais mais profundas, levando o desgaste a seu ponto crítico. Mas esta mesma pesquisa, comparada com a anterior, já mostrava alguma recuperação nas classes média baixa e média média. Pode ser que este movimento, em forma mais avançada, esteja sendo captado pela pesquisa feita para a revista ¿IstoÉ¿.

Certo é que, com Lula mais competitivo, todos vão reexaminar seu jogo. A começar pelo PMDB, que estava muito serelepe no jantar de anteontem. Garotinho não saiu do terceiro lugar e o governador Rigotto ficou entre os lanternas, embora no seu caso isso pouco signifique. Foi a primeira vez que seu nome entrou nas cartelas de pesquisa. Os tucanos também ontem estavam sobressaltados pelo resultado da enquete feita pelo GLOBO junto às bancadas, que apurou uma preferência por Alckmin. Da mesma forma é certo que, com Lula mostrando fôlego, o jogo ficará mais bruto.