Título: POLÍCIA PRENDE MENOS E ROUBOS CRESCEM NO RIO
Autor: Fábio Vasconcellos
Fonte: O Globo, 21/01/2006, Rio, p. 15

Números do Instituto de Segurança Pública indicam aumento de 5 tipos de crime e redução de 4 em 2005

No ano em que a polícia comemorou a prisão de bandidos considerados chefes do tráfico de drogas no Rio, números do Instituto de Segurança Pública (ISP) demonstram que o desempenho da corporação foi mais fraco em 2005 do que em 2004. No ano passado, a polícia prendeu 16.363 pessoas, contra 21.410, no ano anterior, o que significa uma queda de 23,6%. Além disso, a recuperação de veículos feita pela polícia caiu 0,7%.

A redução do número de prisões poderia indicar que houve menos crimes em 2005 e, portanto, menos bandidos teriam ido parar atrás da grades. Mas os mesmos dados do ISP revelam que dos dez tipos de crimes monitorados pela Secretaria de Segurança, cinco tiveram crescimento, um não teve variação, e quatro caíram se comparados a 2004. Os índices cresceram entre os casos de roubos.

Roubo a pedestre foi o crime que mais cresceu

Subiram os números de roubo a transeunte (62%), roubo a coletivo (43,7%), roubo e furto de veículos (5,3), homicídios (2,8%) e latrocínio (13,5%). Caiu o roubo de cargas (20%), roubo a banco (45,9%), roubo a residência ( 2,2%) e o roubo a estabelecimento comercial (18,2%). Seqüestro não teve variação. Em 2004 ocorrem dez registros, assim como no ano passado.

Ao contrário do que tinha sido divulgado ontem pelo ISP, o número de roubos a transeunte em dezembro de 2005 aumentou 27,94% e não 36,5%, em relação ao mesmo período de 2004.

O seqüestro-relâmpago, que embora não faça parte dos dez tipos de crimes monitorados pela ISP, mas cujos dados são divulgados no Diário Oficial do estado, apresentou crescimento de 197%. Em 2004, foram 37 casos, contra 110 no ano passado. A extorsão também subiu. Em 2005 ocorrem 2.220 registros desse crime no estado. Em 2004 foram 1.158, um aumento de 91,7%.

O seqüestro-relâmpago traumatiza boa parte de suas vítimas. Quase um ano depois, um advogado que foi levado por bandidos em março de 2005 quando passava de carro pela na Alameda São Boa Ventura, em Niterói, diz que não gosta de falar sobre o assunto. Resgatada por homens do 12ºBPM (Niterói), a vítima passou quatro horas amordaçada, sob a mira de armas, no Morro do Abacaxi, no Cubango.

¿ Tudo o que eu quero é esquecer o que passei¿ diz.

Os números de seqüestro-relâmpago deixaram de ser divulgado pela Secretaria de Segurança em julho de 2003. Na época, o crime passou a ser classificado como extorsão. A mudança havia provocado uma aparente redução no número de seqüestros. A Secretaria de Segurança informava que, em 2002, haviam ocorrido 24 seqüestros e, em 2003, 14. Entretanto, não era informado que 17 outros casos ocorridos no ano passado haviam sido desviados para o novo índice. Após uma reportagem do GLOBO, a Secretaria de Segurança passou a considerar a extorsão com momentânea privação da liberdade (seqüestro-relâmpago).

O professor de sociologia da UFRJ, Michel Misse, acredita que somente uma análise mais específica dos dados poderá indicar que reflexo a queda no número de prisões teve nos outros índices da violência. Ele ressalta que o aumento dos roubos a transeuntes e roubo a coletivos é bastante crítico.

¿ Não podemos deixar de reconhecer que a polícia fez prisões de chefes do tráfico, que acabam afetando mais bandidos.

Prisões podem ter mudado área de atuação de bandidos

Segundo Misse, muitos bandidos podem, com a prisão dos chefes do tráfico, ter migrado para outros tipos de crimes que a polícia não consegue investigar, como assaltos a coletivos:

¿Por outro lado, o tráfico também recebe a cada dia novos homens. É preciso um estudo mais aprofundado.

A economista e antropóloga Leonarda Musumeci, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, acredita que só uma análise a longo prazo poderá indicar se a queda do número de prisões revela um comportamento da atuação da polícia. De acordo com ela, variações de uma ano para o outro podem acontecer por vários fatores:

¿ Os números de prisões são um dado importante, porém, é mais importante analisar a tendência a longo prazo e ver que mudanças isso pode estar provocando nos tipos de crimes.

Procurado, o secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, não foi encontrado.