Título: LULA E O SEGUNDO MANDATO
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 22/01/2006, O País, p. 4
A decisão, revelada aqui na coluna de quinta-feira e reafirmada por Lula aos senadores do PMDB, de só definir se é candidato à reeleição em junho, tem a ver com o exame das condições objetivas para organizar uma campanha com chances de vencer a eleição. A melhora nas pesquisas eleitorais é uma dessas condicionantes, até mesmo porque o presidente ainda tem a esperança de que, apresentando condições reais de vitória, o pragmatismo do PMDB possa levar o partido a não referendar na convenção a candidatura própria que será escolhida em março, o que pode vir a ser a melhor das hipóteses, pois dificilmente o partido mudará de posição para apoiá-lo oficialmente ocupando a Vice-Presidência.
Lula espera também que o PT se enquadre nesse realismo eleitoral e deixe de defender a verticalização, para permitir a organização de palanques eleitorais diversificados pelos estados. O resultado da pesquisa Ibope/Isto É, se não pode ser comparado com o das pesquisas anteriores, dá, porém, uma tendência do comportamento do eleitorado no momento em que a crise política amaina: Serra é mesmo a melhor aposta dos tucanos contra Lula, pois o governador Alckmin continua na luta própria para ultrapassar Garotinho e se qualificar para um segundo turno.
Outro ponto importante: quando sai Garotinho da lista de candidatos, quem sobe é Lula, ultrapassando Serra. A tese, portanto, de que a candidatura de Garotinho seria boa para Lula, pois garantiria a realização do segundo turno, não se confirma quando melhora a aprovação de Lula.
O PMDB pode ter também uma boa pista para sua decisão sobre candidatura própria. O governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, não aparece como uma alternativa viável no momento, e Garotinho também não tem chances de ir para o segundo turno quando o candidato do PSDB é José Serra.
A decisão sobre ter candidato próprio ou não, e em caso positivo qual candidato, deveria ser tomada, como recomenda o senador José Sarney, depois que o PSDB definir seu candidato. Até junho, o presidente Lula espera que esse quadro esteja mais claro para se decidir, e também aguarda que as CPIs tenham terminado suas investigações.
Não é por acaso que as oposições retomaram o tom agressivo nos últimos dias, e provavelmente veremos uma tentativa de prolongamento das CPIs para dentro do ano legislativo, com um cerco mais ativo ao entorno do presidente Lula.
Além das acusações do esquema de corrupção montado à sombra do Palácio do Planalto ¿ se não com o consentimento do presidente ¿, a oposição vai retomar a tese de que um segundo mandato de Lula pode significar a oportunidade para o PT implantar seu projeto autoritário de governo e executar, finalmente, o famoso Plano B na economia, mais estatizante.
O presidente Lula garante que um eventual segundo mandato não trará surpresas de maneira alguma: não fiz no primeiro, quando tinha toda a força política, vou fazer num segundo mandato?, pergunta ele. Lula diz que já sabe que há limites para a ação do Estado, que não dá para inventar muito. Governo não é de esquerda nem de direita, tem que fazer o que tem que ser feito, diz com convicção. E ele se diz convencido de que a economia está no rumo certo, apesar de todo mundo dar palpite: ¿Você ouve um e é assim, o outro diz que é assado¿.
Pelo menos da boca para fora Lula garante que não interfere nas decisões do Banco Central, ao contrário das notícias que indicam ter ficado irritado com a queda de apenas 0,75 ponto percentual na taxa de juros. Garante que não pede ao Banco Central para mudar artificialmente a política, porque em seis meses vem o revés. Segundo suas palavras, não é justo jogar toda a culpa no Banco Central, que tem apenas os juros para tentar conter a inflação. Os preços administrados têm que ser realmente administrados pelo governo, sem quebra de contratos mas com negociação, para não pesarem muito na inflação.
O governo tomará também atitudes para baixar preços em setores importantes da economia, como a abertura do mercado de importação para forçar a competição dos preços do cimento e do aço, por exemplo. Admite que a intervenção não deu resultados na redução do preço do álcool combustível, mas espera que, depois da queima de estoques, a situação volte ao normal.
Entre as medidas que ainda pretende anunciar este ano para garantir o crescimento econômico, uma condicionante básica para sua candidatura à reeleição, está a liberação de impostos para bens de capitais produzidos internamente, já que a importação está desonerada. Também pretende anunciar novas medidas para incentivar a construção civil, como um seguro habitacional que vai facilitar os financiamentos.
Embora atribua à sua força junto aos movimentos sociais o receio da oposição em pedir seu impeachment, o presidente Lula anda meio irritado com as reivindicações incessantes. Diz que nunca estão satisfeitos, e que, se faz 90% do que prometeu, cobram os 10% que ainda faltam como se nada houvesse sido feito.
Recentemente ele desabafou com a ministra da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, Nilcéa Freire, dizendo que não agüentava mais os ativistas reclamando e fazendo greve por qualquer coisa. A ministra ouviu o desabafo com calma e depois lembrou ao presidente que ele não podia reclamar, pois fora ele mesmo quem ensinara os ativistas a lutar pelos seus direitos dessa maneira.
Lula acha graça da armadilha em que sua militância política volta e meia coloca o governo.