Título: DIVIDIDO, FÓRUM SOCIAL MUNDIAL DEBATE SEU FUTURO
Autor: Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 24/01/2006, Economia, p. 25

Brasileiros querem evitar hierarquia e europeus temem folclorização do evento, que começa hoje em Caracas

CARACAS. O maior encontro mundial da esquerda começa hoje em Caracas com uma gigantesca passeata e uma profunda divisão interna. Depois de seis anos de sua primeira edição, em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial escolheu a Venezuela de Hugo Chávez e o novo contexto politico da América Latina ¿ hoje mais à esquerda ¿ para olhar mais para o próprio umbigo e discutir o seu futuro.

Artigo em jornal francês esquenta debate

Os fundadores do FSM se colocam hoje em dois pólos, conhecidos internamente como grupos dos brasileiros e dos europeus. O primeiro, formado pelos fundadores brasileiros, pretende que o encontro da esquerda se mantenha como um espaço livre de discussões da sociedade civil, sem hierarquia e com decisões apenas pelo consenso, nunca pelo voto. De outro lado se configura o grupo europeu, que quer mudanças radicais. Querem que o FSM assuma uma postura definitivamente política e hierarquize mais suas decisões. O grupo diz temer que o FSM se folclorize e se transforme numa feira internacional de organizações.

O debate existe, na realidade, desde a fundação do FSM, em 2001, mas se acirra em Caracas. Um artigo publicado pelo jornal francês ¿Le Monde Diplomatique¿ fomentou as discussões.

¿Este debate é decisivo para o futuro do altermundismo (a lógica de que outro mundo é possível) prosseguirá em Bamako (cidade do Mali onde é realizada outra ponta do FSM) e também em Caracas. Será particularmente intenso na capital da Venezuela, porque pela primeira vez o fórum será celebrado no marco da Revolução Bolivariana e no conjunto de reformas que o presidente Hugo Chávez conduz¿, diz o texto.

¿ Transformar o Fórum Social assim seria voltar à velha forma de agir na política, com uma hierarquia, com decisões por votos, seria o fim do FSM. Aqui não há rebanhos de pessoas. Eu não vejo uma tensão de ruptura, mas sim de um profundo debate ¿ avalia Oded Grajew, idealizador do Fórum Social Mundial.

Já o italiano Jose Luiz Del Roio acha que o FSM precisa mudar.

¿ Precisamos ter mais campanhas mundiais concretas e interligadas. Não falamos que devemos ter mais centralidade, e sim mais efetividade no mundo. Defendo a mudança, mas como um processo, pois luto ferozmente pelo consenso ¿ disse Del Roio.

Além das discussões internas, o FSM vai às ruas de Caracas hoje à tarde de maneira mais organizada que em Porto Alegre, segundo os organizadores. São esperadas cem mil pessoas para uma passeata. Encerrada ontem a edição africana do fórum em Bamako, no Mali, onde o FSM debateu questões cruciais para a África, como a dívida externa, o acesso à água e as migrações, os organizadores centram fogo agora na Venezuela até o próximo domingo. O FSM deste ano só terminará em março, em Karachi, no Paquistão.

Militante antiguerra americana irá a marcha

Em Caracas, a segunda e maior etapa mundial do FSM começa numa das artérias principais da cidade. A marcha, que segundo organizadores terá um ¿tom antiimperialista e anti-guerra¿, terá participações como a da militante anti-guerra americana Cindy Sheehan, mãe de um soldado morto no Iraque. O presidente Hugo Chávez, que patrocina com seu governo a maior parte do FSM, pode ser um dos oradores num ato previsto para o final da marcha. Até ontem à noite, no entanto, os organizadores não confirmavam a presença de Chávez no evento.