Título: CRÉDITO ATINGE 31% DO PIB, MAIOR NÍVEL DESDE 95
Autor: Adauri Antunes Barbosa/Patrícia Duarte
Fonte: O Globo, 25/01/2006, Economia, p. 23

Volume encostou em R$ 607 bi. Inadimplência cresceu e número de cheques sem fundo emitidos aumentou 19,6%

BRASÍLIA e SÃO PAULO. O volume de crédito solicitado por consumidores e empresas no Brasil chegou a R$606,9 bilhões no ano passado, 21,5% maior do que o de 2004 e o equivalente a 31,3% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de riquezas produzidas no país). Trata-se do maior percentual em relação ao PIB desde os 36,9% de fevereiro de 1995. Segundo o Banco Central (BC), as cifras foram alcançadas sobretudo devido às operações de crédito livre (sem destino obrigatório), com destaque para os recursos às pessoas físicas e para as transações com desconto em folha de pagamento.

Atraídos pela maior facilidade de crédito, no entanto, muitos consumidores acabaram se endividando mais do que podiam, e o número de cheques sem fundos emitidos no país em 2005 cresceu 19,6%. Pesquisa também divulgada ontem pela Serasa mostra que no ano passado foram devolvidos 18,9 cheques a cada mil compensados, contra índice de 15,8 registrado no ano anterior. De acordo com o BC, a inadimplência (atraso no pagamento acima de 90 dias) teve leve crescimento, de 3,6% em 2004 para 4,2% em dezembro último - só para pessoa física, passou de 6,2% para 6,8%.

Apesar de a relação entre o volume de crédito e o PIB estar em linha com a de outros países emergentes, como Argentina e México, a média mundial ultrapassa 100%, segundo a Anefac (associação que reúne os executivos de finanças). Quanto mais alta a proporção, maior a capacidade de consumo e investimento.

- Os dados do BC são bons, mas ainda temos muito espaço para crescer - disse o vice-presidente da Anefac, Miguel Oliveira.

Outro dado positivo foram os juros médios das operações feitas por consumidores, que fecharam 2005 em 59,3% ao ano, o menor patamar desde 1995, quando começou a série histórica. Isso mostra os efeitos da atual política de redução da taxa básica de juros, a Selic, hoje em 17,25% ao ano, iniciada em setembro pelo BC, e ainda o crescimento das modalidades de crédito mais baratas, devido à procura por melhores taxas.

As operações de crédito consignado, por exemplo, cresceram 88,1% no ano, somando R$32,036 bilhões. Os juros médios anuais, de cerca de 36%, são muito inferiores aos do cheque especial, de 147,5% ao ano.

- O crédito consignado não deve crescer tanto este ano, porque já houve expansão forte - disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, sem dar estimativas.

De um total de 1,9 bilhão de cheques compensados em 2005, 36,7 milhões foram devolvidos por falta de fundos, mostrou a Serasa. Em 2004 foram compensados 2,1 bilhões de cheques, dos quais 33,4 milhões voltaram sem fundos. Segundo o assessor econômico da Serasa, Carlos Henrique de Almeida, o consumidor não resistiu ao apelo mercadológico muito forte e se descontrolou na emissão de cheques pré-datados. A conseqüência, prevê, será mais rigidez na redução dos juros.

inclui quadro: evolução das taxas