Título: GOOGLE PARA GOVERNO CHINÊS VER
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 26/01/2006, Economia, p. 21

Site de busca cede a exigências e censura pesquisas na rede

PEQUIM e RIO.O punho-de-ferro com que o Partido Comunista da China controla o setor de mídia foi exposto ontem, frustrando especialmente os mais de cem milhões de internautas do país. Para não desagradar ao governo de Pequim, o Google decidiu lançar na China a ferramenta de busca mais popular da rede sem e-mails e sem a possibilidade de criação de blogs ou chats. O site vai censurar buscas sobre direitos humanos, Tibet e Dalai Lama, entre outros assuntos considerados problemáticos. Uma pesquisa sobre o movimento proscrito Falun Gong, por exemplo, mostra dezenas de páginas omitidas e endereços de sites do governo que condenam o grupo. Na maior parte dos casos, só aparecem sites oficiais, com o sufixo ¿.cn¿.

Dessa forma, a Google segue os passos de outros gigantes da internet, como Yahoo! e Microsoft, que decidiram cooperar com a cada vez maior repressão chinesa à rede para não perder um mercado que cresce mais de 15% ao ano. O governo de Pequim não admite, mas sabe-se que existe hoje um exército de 30 mil pessoas e uma parafernália de programas para controlar a internet chinesa. Todas as empresas são obrigadas a manter registros da movimentação de seus usuários e dá-los ao governo se quiserem operar no país.

A decisão da Google de aceitar as imposições recebeu críticas. Para o Movimento pela Libertação do Tibet, a empresa ¿está endossando a censura e a repressão¿. Em editorial, o jornal britânico ¿Independent¿ diz que o site pôs o lucro à frente dos seus princípios liberais. Mas ressalta que a tentativa do governo chinês pode ser frustrada, já que internautas determinados sempre acharão uma forma de encontrar o que desejam: ¿Na verdade, a concepção de censura completa na internet é irreal¿.

Em Davos, na Suíça, Sergey Brin, co-fundador da Google, disse que a decisão decorreu de uma mudança de visão sobre a melhor forma de encorajar o livre fluxo de informação.

¿ Mais informação é melhor, mesmo que não seja tão completa quanto se gostaria. A questão prática é que nos últimos dois anos o Google vinha sendo censurado na China, não por nós mas pelo governo ¿ disse Brin à Reuters, lembrando que o site já bloqueia o acesso a páginas nazistas na Alemanha e na França, além de respeitar leis sobre pornografia infantil.

Para o professor de Direito em Harvard John Palfrey, não há sentido em falar de censura:

¿ Entrar na China diz respeito a fazer dinheiro, não levar democracia ¿ disse ele à Reuters.

Opinião semelhante tem o diretor da Faculdade de Comunicação da ESPM no Rio, Carlos Alberto Messeder:

¿ Não é uma autocensura. A Google, como qualquer empresa, busca o lucro. E se para entrar no mercado chinês foi preciso fazer concessões, não se trata de uma questão ética, mas de negócios.

O diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Ronaldo Lemos, discorda:

¿ O princípio da internet é o da informação universal, sem fronteiras. Não se pode acessar uma informação de um jeito no Brasil e de outro na China. É perigoso. A Google está agindo como qualquer empresa em busca de lucro, mas está sendo conivente com o regime chinês. (Gilberto Scofield Jr. e Mirelle de França, com agência internacionais)