Título: China: o quarto PIB do mundo
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 26/01/2006, Economia, p. 21
Economia do país cresceu 9,9% no ano passado e ultrapassou França e Reino Unido
Aeconomia da China está atrás agora apenas de Estados Unidos, Japão e Alemanha. O Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto de todas as riquezas produzidas no país) chinês cresceu 9,9% em 2005, atingindo um volume de 18,2 trilhões de yuans (US$2,3 trilhões), o quarto maior do mundo. A China ultrapassou, de uma só vez, as economias da França e do Reino Unido. A informação foi divulgada ontem por Li Deshui, diretor da Agência Nacional de Estatísticas chinesa, o IBGE local.
Ainda pela manhã, quando o PIB foi divulgado oficialmente, sabia-se que a China havia ultrapassado a França. Pelas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) feitas em setembro passado, o tamanho da economia francesa em 2005 foi de cerca de US$2,1 trilhões. A surpresa ocorreu à tarde, quando o Reino Unido informou que sua economia cresceu 1,8% no ano passado ¿ o que, segundo projeções, elevaria o PIB para US$2,14 trilhões.
O combustível para a locomotiva chinesa ¿ que já havia crescido 10,1% em 2004, segundo os números revisados pelo governo ¿ foi o comércio exterior. O superávit chinês foi de US$101,9 bilhões ano passado, US$69,9 bilhões acima do de 2004.
As importações da China em 2005, especialmente de matérias-primas, atingiram US$660,1 bilhões, uma alta de 17,6%. Mas as exportações deram um salto: 28,4%, atingindo o volume recorde de US$762 bilhões e gerando protestos de indústrias em vários países, inclusive no Brasil.
¿ O comércio exterior da China, que somou US$1,4 trilhão no ano passado, cresce a um ritmo muito bom. Ajudou bastante também a manutenção dos níveis de investimento estrangeiro direto ¿ afirmou Li, que também é membro do Comitê de Política Monetária do Banco Popular da China, o banco central chinês.
Na verdade, os investimentos estrangeiros caíram 0,5% em 2005 em relação ao ano anterior. Mas mantêm-se elevados: US$60,3 bilhões só no ano passado. Tanto o comércio exterior quanto o investimento estrangeiro ajudaram a China a alcançar o nível de reservas recorde de US$818,9 bilhões em 2005, mais do que todo o PIB do Brasil (US$789 bilhões).
¿ A economia chinesa vai continuar crescendo a taxas elevadas, movida pelo aumento do consumo doméstico, pelas exportações e pelos enormes investimentos em infra-estrutura e tecnologia. O patamar de 10% anual é sustentável ¿ disse Li.
Pode ser. Mas as altas taxas de crescimento do PIB da China, orgulho do país, preocupam os analistas ouvidos pelas agências de notícias. O próprio Li adverte:
¿ O crescimento ainda é tolerável, mas, se nada for feito logo, a superprodução é uma ameaça. Caso ocorra, haverá uma queda brusca nos preços, com reflexos em empréstimos bancários, falências e desemprego.
¿ A composição desse crescimento será cada vez mais importante ¿ disse Andrew Milligan, diretor de Estratégia da Standard Life Investments, à agência Bloomberg. ¿ Quanto mais a economia se apoiar em exportações, investimentos produtivos e infra-estrutura, mais aumenta a pressão por uma mexida no câmbio ou por salvaguardas comerciais.
Ontem, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, EUA e França voltaram a pedir que a China valorize o yuan. O presidente-executivo assistente do banco central chinês, Min Zhu, disse que ainda há espaço para o país crescer, graças aos 300 milhões que vão do campo para as cidades em busca de emprego. Mas admite que a situação requer cautela:
¿ Nosso modelo é simples: altos investimentos estrangeiros, mão-de-obra barata e exportações. Infelizmente, isso não é sustentável.
Um censo feito em 2005 descobriu que o setor de serviços tem um peso muito maior na economia chinesa do que se supunha. O governo descobriu negócios que até então sequer haviam sido contabilizados e que, somados, fizeram o PIB da China aumentar US$284 bilhões ¿ tamanho do PIB da Áustria ¿ em 2004. Para analistas, essa economia mais sofisticada do que parecia funciona como um colchão que sustenta o crescimento elevado.
(*) Com agências internacionais
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