Título: Dólar em baixa, mundo à vista
Autor: Vagner Ricardo, Cássia Almeida e Geralda Doca
Fonte: O Globo, 24/11/2004, Economia, p. 27

Aqueda do dólar fará a gerente de loja Isabel Galvão cumprir a promessa de viajar com o marido, Lemuel de Paula, e as três filhas aos Estados Unidos. Eles partem em janeiro para duas semanas de férias em Miami e Orlando. O ponto alto será a visita à Disneyworld com as gêmeas Lara e Bianca, de cinco anos, e Lívia, de 14 anos. A viagem deve custar US$ 11 mil.

¿ A baixa do dólar foi uma bênção e permitirá que, em vez de somente eu e meu marido, toda a família possa viajar junta pela primeira vez ¿ comemora Isabel.

O dólar vem caindo de patamar desde 20 de maio, quando alcançou a cotação de R$ 3,214. A baixa desde então é de 14,62% e, no ano, de 5,44%. Ontem, o dólar caiu pelo segundo dia seguido, influenciado pela nova alta do euro frente à moeda americana. O recuo foi de 0,40%, para R$ 2,744 ¿ a menor cotação desde 19 de junho de 2002, antes da crise pré-eleitoral. De acordo com o analista Mário Paiva, da corretora Liquidez, o dólar fechará o ano entre R$ 2,70 e R$ 2,80, dado o elevado ingresso da moeda no país.

Viagens aos EUA aumentaram 30%

O efeito da queda já aparece nas vendas dos pacotes internacionais. Segundo Leonel Rossi Júnior, diretor de Assuntos Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav Nacional), as viagens para os EUA aumentaram 30% este ano. Para a América Latina, a alta ficou entre 20% e 25%, enquanto as viagens domésticas e para a Europa subiram entre 10% e 15%.

¿ Ainda vai demorar de três a quatro anos para recuperarmos o número de turistas brasileiros para os EUA. Há cinco anos, viajava para lá cerca de um milhão de pessoas. Esse número desabou para 300 mil em 2003. Além do dólar em queda, a melhora da economia está ajudando o turismo ¿ diz Rossi.

O presidente da Abav/RJ, Carlos Alberto Amorim Ferreira, explica que também acabou a paranóia de atentados nos EUA. Mas ele lembra que o consulado americano está muito rigoroso na concessão dos vistos.

Mesmo assim, Marcelo Siliciano, diretor da operadora Point to Point, espera vender este ano de 40 a 50 pacotes a mais para os EUA do que em 2003. A operadora de turismo CVC, uma da maiores do país, projeta aumento de 30% nas vendas de pacotes internacionais. Para dar conta da demanda, fretou um transatlântico para cruzeiros no Caribe e mais uma aeronave para Cancún.

¿ Estamos com pouquíssimos lugares para Natal e fim de ano ¿ disse o gerente geral da CVC no Rio, Antonio Carlos Melo.

O ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, reconhece que o dólar no atual patamar facilita a ida de brasileiros para o exterior, mas avalia que a desvalorização da moeda americana ainda não representa uma ameaça, porque a conta-turismo teve saldo positivo em 2003, o que deve se repetir este ano. Segundo o Banco Central, entre 1990 e 2002 os gastos dos brasileiros no exterior superaram as despesas de estrangeiros no Brasil em US$ 22,557 bilhões. Somente em 2003 essa trajetória começou a se inverter, com saldo positivo de US$ 217 milhões. Entre janeiro e setembro deste ano, a conta-turismo teve superávit de US$ 345 milhões.

Mares Guia disse que o governo quer incrementar o turismo doméstico para gerar renda, divisas e empregos. Ontem, o ministério assinou convênio com o Japão para estimular a vinda de turistas japoneses ao Mercosul. Segundo a Agência Internacional de Cooperação Japonesa, menos de 50 mil dos 16 milhões de turistas japoneses visitam os países do bloco.

De acordo com uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a ser divulgada hoje pelo ministério, 92% das operadoras apostam na expansão do turismo no país nos próximos meses. Segundo a pesquisa, que ouviu 836 empresários do setor, com as novas rotas internacionais que ligam Milão a Natal e Fortaleza, e Lima a Florianópolis, a temporada de verão deverá registrar recorde de vôos charter . Com a expansão da economia e da aviação comercial, o número de desembarques cresceu 14,97% de janeiro a setembro frente a 2003.