Título: Milhares cercam palácio presidencial da Ucrânia
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Fonte: O Globo, 24/11/2004, O mundo, p. 35

Cerca de cem mil pessoas marcharam ontem à noite até o Palácio da Presidência da Ucrânia, em Kiev, para tentar tomar o poder em nome do candidato oposicionista Viktor Yushchenko, que acusou o governo de ter fraudado as eleições presidenciais de domingo. A marcha aconteceu horas após Yushchenko ter simulado tomar posse fazendo um juramento no Parlamento ucraniano e depois ter sido saudado como presidente por mais de 250 mil pessoas reunidas na Praça da Independência, num gesto que praticamente enterra a possibilidade de uma solução negociada para o conflito político que, alguns acreditam, pode se transformar numa guerra civil.

Enviados de União Européia, Estados Unidos e Organização para a Segurança e Cooperação Européia (OSCE) também dizem que houve fraude. Nos resultados divulgados, com 99,4% dos votos apurados o primeiro-ministro Viktor Yanukovich tinha 49,4% contra 46,7% de Yushchenko, o que daria ao premier, candidato do presidente Leonid Kuchma, a vitória. O resultado final ainda não foi divulgado.

Cidades do oeste do país se recusaram a aceitar a vitória de Yanukovich e algumas, como Kiev e Lviv, anunciaram reconhecer Yushchenko como presidente. No leste e no sul do país, onde há uma grande comunidade russa, também há mobilizações. A Assembléia Legislativa da região da Criméia declarou apoio a Yanukovich e disse que os protestos no oeste ¿são uma ameaça real de divisão do país e põem em dúvida a continuidade do Estado ucraniano independente.¿

Temor de guerra civil preocupa políticos

O oposicionista Yushchenko disse que o país ¿está às portas de um conflito civil¿ e incitou a população a não sair das ruas até que seja levado ao poder:

¿ O que começamos precisa ser defendido todos os dias.

O candidato esperava que o Parlamento desse um voto de desconfiança à Comissão Eleitoral. Isso levaria o caso ao Supremo Tribunal, que poderia ordenar uma revisão do resultado. Mas os deputados governistas se ausentaram, impedindo que houvesse quórum. O presidente do Parlamento, Volodmyr Lytvyn, pediu que houvesse uma solução pacífica:

¿ A Ucrânia desliza para um conflito civil de conseqüências imprevisíveis.

Yushchenko subiu à tribuna, mas antes de começar seu simulado discurso de posse Lytvyn declarou a sessão encerrada.

O líder opositor, então, juntou-se aos manifestantes que enfrentavam uma nevasca. A deputada Yulia Tymoshenko conclamou a multidão a invadir o Palácio da Presidência:

¿ Vamos para o palácio de forma pacífica, sem quebrar nada. Ou eles vão deixar o poder ou nós vamos tomá-lo.

Milhares obedeceram à convocação, mas ao chegarem lá o local estava cercado pela polícia. Não houve confronto e a multidão só gritou para que os policiais se unissem à manifestação.

A UE e os EUA aumentaram a pressão sobre o governo ucraniano ontem. O premier da Holanda, país que ocupa a presidência da UE, Jan Peter Balkenende, telefonou ontem para o presidente Kuchma para expressar suas dúvidas sobre o resultado da eleição.

Os EUA também se juntaram às críticas. Segundo Claire Buchan, porta-voz da Casa Branca, o governo americano está ¿profundamente preocupado.¿

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, principal aliado de Yanukovich, disse ontem que são inadmissíveis as dúvidas da UE em relação à eleição:

¿ Os observadores devem ter mais cuidado em seu trabalho, porque os resultados oficiais ainda não são conhecidos.

No dia anterior, Putin parabenizara Yanukovich pela vitória. A chancelaria russa divulgou uma nota na qual afirmou que a UE está ¿incentivando a oposição ucraniana a realizar ações ilegais e violentas.¿

À noite, o presidente ucraniano pediu que os dois lados negociassem e criticou a oposição:

¿ Esta farsa política que está ocorrendo é muito perigosa e pode levar a conseqüências inimagináveis.

Yulia Tymoshenko, da oposição, disse que a proposta de negociação deve ser aceita.