Título: Terror no baile funk
Autor: Ana Cláudia Costa e Tulio Brandão
Fonte: O Globo, 29/11/2004, Rio, p. 11
A morte do gerente do tráfico da Vila Cruzeiro, na Penha, conhecido como André Moral, na madrugada de ontem, transformou em tragédia, logo depois, o baile funk, realizado numa quadra do Morro da Chatuba, no mesmo complexo de favelas. Após a morte de André, traficantes foram ao baile, dispararam tiros a esmo e jogaram granadas contra os freqüentadores, matando um homem e ferindo 38. Segundo policiais do 16 BPM (Olaria), os feridos, entre eles 17 baleados, foram atendidos nos hospitais Getúlio Vargas e Carlos Chagas, alguns atingidos com estilhaços de granada.
O ataque ao baile é o quinto episódio violento ocorrido em favelas do Rio na última semana. Ontem, morreu o primeiro-tenente do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Alexandre Sarmento, de 37 anos, baleado no peito, sábado, durante tiroteio com bandidos, no Morro São Carlos. O tiro atravessou o colete à prova de balas.
Hospital foi cercado por carros da PM
Moral morreu na Rua Cajá, quando saía do Morro da Chatuba. Ele estava numa motocicleta Honda CB 500, com um outro bandido armado na garupa e era escoltado por dois carros com traficantes. Policiais do Grupamento de Policiamento de Áreas Especiais (Gpae) disseram ter sido surpreendidos por tiros e reagiram.
¿ O bandido na garupa saltou da moto andando e atirando contra nós e conseguiu fugir. Moral foi atingido e levado ainda com vida ao Getúlio Vargas. Morreu assim que chegou ao hospital ¿ contou um policial.
A placa da motocicleta, apreendida pela polícia, tinha o desenho de uma pistola vermelha com as iniciais R.L (Rogério Lengruber, fundador da mais antiga facção criminosa do país) e as inscrições ¿Vida Loka¿ e ¿Made in Chatuba¿. Foram encontradas na mochila do traficante uma pistola Glok, cocaína e CDs. A motocicleta foi perfurada por três tiros de fuzil.
Ao saberem da morte de Moral, traficantes foram ao baile funk e dispararam tiros e lançaram granadas. Houve pânico e dezenas de pessoas foram pisoteadas ou ficaram feridas por estilhaços de granada e por cacos de vidro. Segundo testemunhas, pelo menos duas granadas foram lançadas. Às 2h, as ruas da Penha ficaram cheias de pessoas expulsas do baile.
Um servente de obras, de 21 anos, ferido nas pernas e nos braços, contou que tentou correr, mas acabou debaixo de dezenas de pessoas:
¿ Estava tudo tranqüilo no baile. De repente balearam um homem e aí começou um grande tumulto e mais tiros. Fiquei embaixo de umas 20 pessoas, todo cortado por cacos de vidro, sem poder sair. Achei que não sairia vivo dali.
Após a chegada de Moral ao Getúlio Vargas, o clima ficou tenso, pois havia a ameaça de bandidos tentarem resgatar o cúmplice. As ruas que ligam o hospital ao morro foram bloqueadas por carros do 16 BPM e receberam o reforço do Gpae, do Batalhão de Choque e do Grupamento Especial Tático Móvel (Getam). Na porta, dezenas de pessoas tentavam obter informações. Feridos eram levados aos hospitais em kombis, ambulâncias, carros particulares e até bicicleta.
O ataque ao baile sobrecarregou a emergência e o centro cirúrgico do Getúlio Vargas. Os corpos do traficante e de um homem não identificado, que também morreu no hospital, foram enviados ao Instituto Médico-Legal, na manhã de ontem.
A polícia investiga duas hipóteses para o ataque. Uma delas seria de que traficantes de facções rivais teriam atacado o baile ao saberem que o chefe do tráfico da Vila Cruzeiro havia sido morto. A outra hipótese seria de que, revoltados e suspeitando que o chefe morrera depois de ser denunciado, bandidos decidiram atacar possíveis traidores que estavam no baile funk.
Em março de 2003, Moral foi incluído na lista de prováveis líderes das ações criminosas no Rio. Segundo investigações, era o braço armado de sua facção criminosa e tinha perfil de guerrilheiro. Era suspeito de ter orquestrado quatro ações violentas na madrugada do dia 31 de março, quando ônibus e carros foram atacados a tiros e queimados, na Avenida Brasil, matando um PM. Na mesma ocasião, bombas também foram atiradas contra o Hotel Méridien, em Copacabana. A estação do metrô de Del Castilho foi atacada com tiros e coquetéis molotov e uma bomba artesanal foi atirada contra o Shopping Nova América.
O clima era de aparente tranqüilidade no Morro da Chatuba e na Vila Cruzeiro, na manhã de ontem. Um comboio com 12 carros do Getam e do Batalhão de Choque percorreu a região, onde foram apreendidos um revólver calibre 44, munição, 50 gramas de maconha, 50 gramas de cocaína e material para embalar droga. Ninguém foi preso. Na Rua Cajá, uma motocicleta e um carro estavam abandonados. No lugar ainda havia sangue e cápsulas de fuzil.
À tarde, cem policiais civis e militares voltaram à Chatuba para verificar denúncia de que havia quatro corpos na quadra onde ocorrera o baile funk, mas nada encontraram. Nas principais vias de acesso ao morro, bandidos atiraram contra os policiais e soltaram fogos de artifício. Um carro do Esquadrão Anti-Bombas foi encurralado e alvejado. Um carro blindado do Bope e um helicóptero da Polícia Civil, deram apoio à operação. Mas não foi possível realizar a perícia na quadra. Segundo um perito, o trabalho foi prejudicado pela chuva, que teria eliminado possíveis provas.