Título: `Essa é a zona de sombra da globalização¿
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 06/12/2004, O Mundo, p. 21

Quadrilhas de adolescentes, pedofilia, trabalho infantil, prostituição e castigos físicos. É grande a lista de atos violentos contra crianças e adolescentes no mundo, como relata Paulo Sérgio Pinheiro, em entrevista ao GLOBO. Ele lembra que a agressão contra jovens no Brasil também aumentou e a principal causa de morte violenta no país é o homicídio de pessoas entre 19 anos e 25 anos. O estudo exclui a violência contra crianças nos conflitos armados, porque esse tema está sendo tratado isoladamente na ONU.

Como vocês estão fazendo a pesquisa?

PAULO SÉRGIO PINHEIRO: Enviamos aos países um questionário de de 30 páginas. Oitenta já responderam, inclusive o Brasil, o que é recorde em termos de ONU. Perguntamos sobre legislação, estatísticas, práticas, problemas e órgãos de controle. O estudo tem ainda um conselho formado por 25 ONGs.

Há algum tipo de violência comum a todas as regiões do mundo? Ou particular a uma área?

PINHEIRO: Há práticas comuns em todas as regiões, como castigo corporal, violência sexual e tráfico de crianças. Os números são aterradores. Há muita violência doméstica e pedofilia. Os Estados Unidos e a Europa convergem nesse problema. Cada região tem destaques. Fui a El Salvador, Guatemala e Honduras. Lá o grande problema são as quadrilhas de jovens, chamadas maras. Na América Central e na América do Sul a situação dos adolescentes em conflito com a lei é terrível. Isso é novo. É produto de exportação dos EUA. Boa parte das maras têm contato com Los Angeles. Muitos são jovens imigrantes expulsos dos EUA. Mesmo no Brasil há uma massa de jovens envolvidos em quadrilhas. São pobres, não brancos. Na América Central, são pobres de origem indígena e totalmente marginalizados. Em alguns países, mais da metade das crianças não freqüenta a escola. Há formação de quadrilhas e uma repressão pesadíssima.

É o caso também do Brasil?

PINHEIRO: É o caso do Brasil. A Unesco publicou pelo quarto ano consecutivo o mapa da violência e a principal causa de morte violenta no Brasil é o homicídio de pessoas entre 19 anos e 25 anos de idade. No Brasil, em termos de violência, seria a que tem mais destaque. O segundo, a meu ver, é o trabalho infantil, especialmente o trabalho doméstico de meninas do Nordeste. A OIT fez um relatório recente. A Ásia também tem esse problema. O trabalho doméstico no Brasil é um fenômeno pouco estudado. O governo FHC tirou um milhão de crianças do trabalho infantil, mas ainda tem três milhões. É muito.

Há uma violência contra crianças específica da América do Sul?

PINHEIRO: Sim. O turismo sexual, que é também um problema na Ásia. Vêem-se cidadãos do Primeiro Mundo viajando para a Ásia, a América Central e o Brasil para turismo sexual. A adoção internacional, feita de forma totalmente irregular, é outro problema que une Europa, Estados Unidos e América do Sul. Em alguns países, chega-se ao requinte de comprar a criança antes. Você encomenda a criança a uma mãe reprodutora na América Central. Em capitais que visitei, há verdadeiras fazendas de reprodução de crianças.

Incesto e tráfico sempre existiram...

PINHEIRO: Mas a situação piorou. A globalização, a internet, a facilidade dos transportes, a abertura de fronteiras e a abertura do antigo bloco socialista. A máfia de prostituição da antiga Europa Oriental para os países ocidentais e da Ásia para Europa é uma loucura. Os números de mulheres traficadas são impressionantes. É a zona de sombra da globalização: tráfico de meninas, máfias da prostituição infantil e pedofilia. A internet é uma praga que os governos terão que enfrentar. A pedofilia é antiga. Mas ao mesmo tempo que tem zona de sombra, tem a quebra do silêncio e o aumento da visibilidade. Os governos podem se articular, as crianças podem ser ouvidas.

O que há de novo?

PINHEIRO: É evidente que os 15 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança ajudaram. Os países se mobilizaram mais. Houve um avanço extraordinário nas legislações domésticas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil. A rede de conselhos da criança e do adolescente no Brasil é um modelo. Poucos países têm isso. Outra coisa nova é a própria participação da criança e do adolescente. Nas Filipinas, crianças e adolescentes participam de conselhos. (D.B.)