Título: Camex: Brasil adotará salvaguardas se Argentina não voltar atrás em 30 dias
Autor:
Fonte: O Globo, 14/12/2004, Economia, p. 26
O Brasil dá 30 dias para a Argentina rever a imposição de sobretaxas às exportações brasileiras de eletrodomésticos, decidida em julho deste ano. Caso contrário, o país ¿ que vem tentando negociar o fim das cotas para produtos como geladeiras e televisores ¿ vai usar da mesma arma e baixar salvaguardas à entrada de produtos argentinos, como arroz, vinho, trigo, cebola e alho. A informação foi dada ontem pelo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Mário Mugnaini, que presidiu a última reunião do órgão em 2004, com a presença dos ministros do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e da Agricultura, Roberto Rodrigues.
¿ Se não houver acordo, nós vamos introduzir esses elementos porque temos vários problemas, sobretudo no Rio Grande do Sul ¿ explicou o secretário.
Disputa comercial deve dominar reunião de cúpula
Mugnaini lembrou que quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o Rio Grande do Sul, há cerca de duas semanas, recebeu muitas reclamações sobre invasão de produtos argentinos, como arroz, cuja grande quantidade importada tem forçado os preços para baixo no estado, e vinho. A medida restritiva, se adotada, deve ter o respaldo de vários analistas e entidades empresariais, que a vêem como uma maneira de pressionar a Argentina a se comprometer com o avanço do Mercosul, estacionado devido a disputas internas.
Segundo o secretário da Camex, a suspensão das salvaguardas argentinas será discutida novamente dentro de um mês. Semana passada, o encontro entre os negociadores dos dois países terminou em impasse, pois a Argentina mantém a posição de proteger a indústria local de uma alegada invasão de produtos eletroeletrônicos brasileiros, decorrente da maior competitividade do Brasil ¿ fruto da desvalorização cambial brasileira e da recessão argentina.
O governo brasileiro tentará, na Cúpula de Ouro Preto ¿ que acontece quarta e quinta-feira desta semana e marca os dez anos de criação do Mercosul ¿ pôr fim ao clima de azedume nas relações comerciais com a Argentina. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai propor a seu colega Néstor Kirchner trocar as salvaguardas pedidas pelos argentinos por empréstimos ao setor produtivo.
Segundo o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Fortes de Almeida, as verbas, cujo montante não foi definido, viriam do BNDES e do Programa de Financiamento às Exportações (Proex). Com isso, o Brasil espera fortalecer a Argentina, hoje sem crédito externo, e o próprio Mercosul, sem sacrificar as exportações brasileiras.