Título: `Combate à fome deve ter prioridade máxima¿
Autor: Cássia Almeida e Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 17/12/2004, Economia, p. 28
Responsável por coordenar a análise da POF, o médico Carlos Augusto Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP), destaca que, apesar da melhora nos últimos anos, as ações de combate à fome devem ter prioridade máxima no país.
O resultado da POF surpreendeu?
CARLOS AUGUSTO MONTEIRO: Em geral, não. As mesmas tendências que vínhamos observando em pesquisas anteriores foram confirmadas. Houve melhoria nos indicadores relacionados a deficiências nutricionais, aumento da obesidade, com intensidade maior de aumento na população mais pobre, e mudanças de modo geral desfavoráveis no padrão alimentar da população brasileira, aproximando-a de padrões observados nos EUA e em outros países desenvolvidos e que levam ao aumento na frequência da obesidade, doenças do coração, diabetes, certos tipos de câncer etc.
Mesmo nas camadas mais pobres da população e no meio rural, há baixa incidência de déficit de peso. Isso significa que não há fome ou desnutrição no Brasil?
MONTEIRO: Isso quer dizer que as formas de desnutrição determinadas pela ingestão insuficiente de calorias estão em franco declínio no país e que subsistem apenas em algumas regiões, com destaque para o semi-árido nordestino. Quanto à fome, a resposta é mais difícil. Se entendermos como fome a deficiência crônica de energia e eu, particularmente, assim a entendo, então vale o que falei anteriormente. Se entendermos fome como equivalente de pobreza, de baixa renda, não acesso a necessidades básicas etc., obviamente a resposta seria outra.
O que a POF esclarece do ponto de vista da formulação de políticas públicas para combate à fome e à pobreza?
MONTEIRO: Ações de combate à fome devem ter prioridade máxima no país, uma vez que é inadmissível que um país como o Brasil ainda conviva com o problema. Mas a dimensão deste problema requer ações específicas, de caráter urgente, mas focalizadas e dirigidas aos segmentos da população efetivamente atingidos pelo problema. A dimensão da pobreza no país em muito excede a dimensão da fome e como tal requer outra abordagem.
A pobreza pode levar as pessoas a se alimentarem mal, ou seja, a comerem uma quantidade suficiente de calorias, porém em alimentos sem valor nutricional?
MONTEIRO: A qualidade da alimentação tem uma determinação muito mais complexa e não envolve apenas a renda dos indivíduos. Outros fatores como a produção e a oferta de alimentos, os conhecimentos que as pessoas têm sobre a relação entre alimentação e saúde, os recursos investidos na propaganda de alimentos, a cultura alimentar de cada sociedade, enfim, são vários os fatores que determinam a boa ou a má qualidade da alimentação. No caso do baixo consumo de frutas e hortaliças no Brasil, certamente fatores econômicos têm um peso importante. Já no caso do consumo excessivo e crescente de alimentos nada saudáveis como biscoitos e refrigerantes, pesa mais a publicidade agressiva desses alimentos. Assim, políticas públicas podem ajudar, por exemplo, estimulando a produção e comercialização de alimentos saudáveis, seja por meio da assistência técnica, seja por meio de políticas fiscais, informando melhor as pessoas, exigindo a colocação de informações nutricionais corretas nos alimentos industrializados, limitando a publicidade de alimentos não saudáveis e, mesmo, incorporando o conceito de alimentação saudável em programas institucionais de assistência alimentar.
Entre as mulheres, na área rural, a prevalência de déficit de peso chega a 7,2% no Nordeste. Há alguma explicação para isso?
MONTEIRO: Isso mostra que o problema da deficiência crônica de energia ainda subsiste para uma pequena parte da população brasileira rural e que o problema tende a ser maior no Nordeste do que no restante do país. De qualquer forma, mesmo no Nordeste rural, a deficiência energética crônica tem dimensão reduzida e incomparavelmente menor do que a dimensão da pobreza, que é quase universal na região.