Título: Crianças podem mostrar desnutrição
Autor: Cássia Almeida e Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 17/12/2004, Economia, p. 28

O resultado apresentado ontem sobre o peso e a altura dos brasileiros não inclui informações sobre crianças, parcela da população que é a mais vulnerável à desnutrição. Os dados se referem apenas aos 95 milhões de brasileiros com 20 anos ou mais. O IBGE deve reunir em outra publicação, a ser apresentada no ano que vem, as informações sobre crianças e adolescentes.

Os especialistas explicam que, entre os adultos, deficiências alimentares ocasionais não se refletem imediatamente na massa corpórea. A fome precisa ser duradoura para resultar em déficits de peso significativo.

¿ Nas crianças é diferente, a perda de peso é imediata ¿ diz Fernando Gaiger, do Ipea.

Além disso, o médico Carlos Augusto Monteiro lembra que há outras formas de desnutrição, provocadas pela carência de nutrientes específicos, que não foram investigadas pela pesquisa. É o caso da anemia em lactentes, causada pelo baixo consumo de ferro.

Segundo Monteiro, se as crianças entre zero e cinco anos fossem incluídas, o índice de desnutrição seria maior. A POF mostrou taxa aceitável de 4% de pessoas adultas abaixo do peso ideal. Nessa faixa etária, diz o professor, não é só a alimentação insuficiente que causa desnutrição:

¿ A pobreza na faixa de zero a cinco anos é determinante na desnutrição. A criança sofre com as condições de saneamento, com a incidência de doenças provocadas pela pobreza mais que os adultos. Nessa faixa, desnutrição e pobreza são sinônimos.

Houve avanço considerável no combate à desnutrição, conforme a pesquisa, mas é um problema importante principalmente na zona rural:

¿ Em 1996, um quarto das crianças nessa faixa etária estava desnutrida na área rural do Nordeste.

A POF investigou o total de gastos das famílias com habitação, saúde, educação, impostos, alimentação etc., dentro e fora do domicílio. Mas, no que diz respeito ao consumo de alimentos, é medida apenas a quantidade ingerida em refeições realizadas dentro de casa. Assim, a POF constatou que, em média, o brasileiro gasta R$ 73,14 com alimentação fora do domicílio, mas a pesquisa não consegue medir quantas calorias são consumidas em refeições feitas na rua.

Do mesmo jeito, a POF mede o consumo não-monetário, ou seja, que é realizado sem o uso do dinheiro, via escambo, doação ou cultivo próprio. Mas não consegue captar o consumo não-monetário realizado fora do domicílio. É o caso das refeições realizadas no trabalho ou da merenda escolar.

A POF foi realizada entre julho de 2002 e junho de 2003 em todo território nacional. Mil pesquisadores coletaram informações de 48.470 famílias e passaram nove dias, em cada domicílio, observando os hábitos de consumo dos brasileiros, além de medi-los e pesá-los.

A incidência de déficit ou excesso de peso e obesidade é medida pelo índice de massa corpórea: divide-se o peso do indivíduo em quilos pela sua altura em metros, elevada ao quadrado. No caso do déficit de peso, se até 5% da população estão nessa condição, há um padrão normal porque existem pessoas magras por fatores hereditários, e não por fome.

Entre 5% e 10% da população com déficit de peso, considera-se baixa exposição à desnutrição. De 10% a 20%, moderada e de 20% a 30%, elevada. Para termos de comparação, na Etiópia 38% dos adultos têm déficit de peso e na Índia, 49%.