Título: Proteger o Rio dos danos das enchentes
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Fonte: O Globo, 29/12/2004, Opinião, p. 7

Enchentes e inundações não são acontecimentos da atualidade. Há muito tempo a imprevisibilidade do clima e das chuvas preocupa as populações. Na verdade, como qualquer evento da Natureza, as enchentes podem ser consideradas benéficas, sendo o principal benefício a renovação do ecossistema onde ocorrem, como, por exemplo, os enormes encantos e belezas a partir de cheias em locais como o Pantanal de Mato Grosso. A cheia só é considerada indesejável quando resultante das ações pouco responsáveis da raça humana no meio ambiente.

É o caso das enchentes urbanas, que castigam as grandes metrópoles e, particularmente, aquelas que ocorrem nos climas quentes e úmidos, como na cidade do Rio de Janeiro. É indiscutível que a ocupação desordenada das áreas urbanas desprovidas de infra-estrutura adequada tende a aumentar em magnitude e rapidez a ocorrência das inundações.

O tratamento do problema das cheias urbanas vem sofrendo drásticas alterações nas últimas décadas, do ponto de vista da engenharia de recursos hídricos. "Crescimento sustentável" está na ordem do dia, sendo a escassez ou o excesso de água, ou melhor, sua quantidade, característica totalmente indissociável da sua qualidade. Nas inundações urbanas temos obviamente os dois problemas concomitantes, porque as águas das enchentes são em geral contaminadas, e afetam a saúde da população tanto ou mais do que as próprias inundações. Porém aqui nos ateremos às causas dessas enchentes e o que fazer para minimizar seus impactos sociais e econômicos.

O conceito moderno de combate às enchentes se encontra amarrado à necessidade de fazer os volumes escoados nas bacias urbanas se aproximarem o mais possível dos valores anteriores à ocupação e à urbanização descontroladas e desordenadas. Isto recebe o nome da sigla inglesa BMP, ou melhores práticas de gerenciamento. Não são necessários conhecimentos técnicos profundos para se constatar que a urbanização torna impermeável boa parte do solo da bacia, reduzindo drasticamente a capacidade de infiltração e posterior recarga dos lençóis subterrâneos.

Nos países desenvolvidos, atualmente é proibido impermeabilizar, e são empregados dispositivos simples como trincheiras de infiltração, "telhados verdes", armazenamento e reutilização em loteamentos, pavimentos permeáveis ou vazados etc. Por outro lado, a ocupação de áreas de risco, tais como zonas próximas aos cursos de água ou canais, bem como áreas de encostas, contribui mais ainda para o agravamento do problema, além dos deslizamentos e dos desabamentos.

É triste notar que em geral são as populações mais carentes que, por falta de opção e de dinheiro, tendem a ocupar tais áreas de risco iminente. A proximidade de assentamentos em relação às calhas dos rios reduz enormemente a capacidade de escoamento da chamada calha secundária, que se destina a acomodar e conduzir as águas de inundação. A ocupação de encostas, por sua vez, torna ainda mais vulnerável a bacia urbana, tanto pela remoção da vegetação natural, que tem aspecto altamente protetor, retendo e ajudando a evaporação das águas de chuva, como pela exposição à erosão a que os solos desmatados ficam submetidos. As chuvas vão erodir tais solos e carrear mais material sólido, além do lixo, para as estruturas de drenagem, comprometendo seriamente sua capacidade.

As soluções de longo prazo para evitar tais problemas passam pela elaboração conjunta de Planos Diretores Urbano e de Drenagem, com implementação de medidas que demandam tempo e dinheiro, porém este em muito menor quantidade do que as perdas monetárias com os prejuízos das inundações urbanas, comprovando a velha máxima de que mais vale prevenir do que remediar.

No entanto, cá estamos às portas do verão e as medidas devem ser de curto prazo, infelizmente. Ainda assim há muito que ser feito, principalmente quanto à manutenção da rede urbana de drenagem, por mais insuficiente que ela seja. Evitar o quanto possível a proliferação de ocupações irregulares do espaço urbano é fundamental. É preciso ainda fazer a dragagem de rios e canais, cuidar da coleta e da disposição regulares do lixo urbano e, principalmente, conscientizar a população em termos de educação ambiental.

Não jogar pequenos lixos nas ruas pode parecer atitude despretensiosa e isolada, porém se multiplicada por quase todos os habitantes da cidade fornece excelentes resultados para minimizar o impacto das inundações. É necessário que cada um faça sua pequena parte para o alcance de um todo ambientalmente mais agradável, menos agressivo e menos alagado.

FLÁVIO CÉSAR BORBA MASCARENHAS é chefe do Laboratório de Hidráulica Computacional da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Bom negócio para as empresas

Aresponsabilidade ambiental é certamente uma das áreas da gestão empresarial que mais evoluiu nos últimos anos. Embora muito se saiba sobre as potenciais conseqüências de uma abordagem ambiental leviana para as gerações futuras, ainda se engatinha na consolidação do entendimento de como a responsabilidade meio-ambiental pode ser benéfica para as empresas.

Na pesquisa 2004 Executive Opinion Survey, do World Economic Forum - inédita no Brasil - foram feitas perguntas aos líderes mundiais sobre as iniciativas governamentais em relação ao meio ambiente. O estudo tem resultados surpreendentes. Alguns países ricos não estão realizando esforços suficientes para manter a qualidade de seu meio ambiente, enquanto, em contrapartida, alguns países pobres, com meio ambiente degradado, estão implementando medidas eficazes para superar essa situação. O relatório também mostra que as ações ambientais mais concretas realizadas pelas empresas estão sendo tomadas pelos setores mais dinâmicos e competitivos.

O estudo confirma que a preocupação com o meio ambiente assume diferentes formas, em função do desenvolvimento em que cada país se encontra. Nos países pobres, cujos recursos principais são as matérias-primas básicas e a mão-de-obra barata, a principal preocupação é se o método utilizado apresenta o devido respeito pelas conseqüências ambientais e pelo bem-estar dos trabalhadores. Nas economias com um grau de desenvolvimento intermediário, a responsabilidade meio-ambiental consiste em implantar controles a custos razoáveis, reduzir a poluição e maximizar a utilização de matérias-primas básicas. Nas economias mais avançadas, a competitividade está centrada na busca de novas tecnologias e em processos produtivos limpos, assim como em buscar novos mercados para produtos que respeitem o meio ambiente e sejam "responsáveis" do ponto de vista social.

Surpreendentemente, nota-se também que as empresas se encontram em desvantagem quando as normas ambientais são vagas. A pesquisa mostra que, em cerca de 40% dos países, os governos aplicam políticas cujo efeito é distorcer a competição e fomentar um uso ineficiente da energia e dos recursos naturais. Quando os governos adotam e aplicam normas ambientais claras e exigem que as empresas informem sobre seus comportamentos, consegue-se que estas concorram em pé de igualdade e aflorem as verdadeiras vantagens de cada uma.

Todavia, isso não resolve o problema dos desequilíbrios em nível global. A atual anarquia existente na legislação ambiental internacional cria sérias ineficiências para as empresas. Uma saída seria a criação de órgãos ou princípios internacionais - nos moldes de Bretton Woods e da Organização Mundial do Comércio para a economia. Cabe às empresas, em particular às corporações mundiais, pressionar os governos para reforçar a sua conduta na matéria do meio ambiente em nível internacional.

Resta dizer que as conseqüências de uma conduta corporativa pouco ética podem ser nefastas. A falta de responsabilidade ambiental é percebida cada vez mais como algo inaceitável. O corte ilegal de florestas nos trópicos, a pesca incontrolada com métodos abusivos em alto-mar e a exportação de resíduos perigosos para países em desenvolvimento são tidos cada vez mais como algo moralmente condenável. Pode ser que a curto prazo se produzam benefícios, mas em um mundo cada vez mais globalizado, nada pode ser mantido oculto durante muito tempo. Uma empresa que for descoberta por ter praticado algo imoral pode sofrer um castigo muito caro. Ganhar a confiança do consumidor custa muito e, uma vez perdida, dificilmente ela é recuperada.

Hoje em dia, algumas empresas inovadoras estão convertendo o que antes era tido como entraves ambientais em oportunidades de negócio. Parece óbvio que as empresas que obtiverem posições de vanguarda serão aquelas que conseguirão economias energéticas e redução da dependência dos combustíveis fósseis. Existem inúmeras oportunidades em tecnologias alternativas que defendem a eficiência energética e o campo das energias renováveis.

As empresas que desejarem continuar no pódio sabem que compensa ser pró-ativo ao invés de reativo, antecipando-se aos problemas de forma a evitá-los. Em um mundo cada vez mais globalizado, não resta dúvida de que a responsabilidade ambiental é boa para os negócios.