Título: Umbanda e candomblé estão encolhendo no país
Autor: Chico Otavio e Toni Marques
Fonte: O Globo, 01/01/2005, O País, p. 10

IBGE registra perda de quase 20% dos adeptos entre 1991 e 2000; ação das igrejas neopentecostais é decisiva

Na avenida, as escolas de sambas abandonam, aos poucos, as referências aos orixás. Na política, os representantes tradicionais já não são mais eleitos. No comércio, as lojas especializadas estão fechando. Porém, são as estatísticas que revelam o dado mais enfático: as religiões afro-brasileiras estão encolhendo no país. Entre 1991 e 2000, o IBGE registrou uma perda de quase 20% dos adeptos no Brasil.

Deixados em paz pela perseguição policial e pela intolerância católica que marcaram sua trajetória inicial, há mais de um século, a umbanda e o candomblé enfrentam agora outro tipo de adversário. Alvo de uma guerra sem tréguas desencadeada por igrejas pentecostais, as religiões afro-brasileiras também sofrem com o processo de urbanização, que empurra os terreiros para a periferia das cidades, com a concorrência do mercado de serviços mágicos exercida por magos, tarólogos e outros especialistas em esoterismo, além da própria dificuldade de se adaptar às técnicas de comunicação de massa.

Entre os Censos de 1991 e 2000, a população do país cresceu 13,6% (foi de 146 milhões para 169 milhões). Porém, o número de umbandistas, no período, caiu de 541 mil (0,37%) para 397 mil (0,23%). Já o número de adeptos do candomblé permaneceu praticamente inalterado (0,07%): de 107 mil em 1991 foi para 127 mil em 2000. Juntas, a umbanda e o candomblé não representam mais de 0,3% da população. Em 1980, correspondiam a 0,6% do total.

Mas os indícios desse declínio não são apenas numéricos. No desfile das escolas do grupo especial deste ano, apenas duas ¿ Tradição e Império Serrano ¿ exibiram sambas-enredo com referências à umbanda e ao candomblé, ainda assim uma reapresentação de sambas famosos do passado. Dez anos antes, a marca das religiões afro-brasileiras aparecia em quatro sambas e, em 1984, em cinco, sendo um deles inteiramente dedicado ao tema ¿ ¿Oferendas¿, da Unidos da Ponte, que canta ¿o samba pisa forte no terreiro¿.

Pai-de-santo não usa computador

Jorge Corrêa de Ogum comanda, de Vaz Lobo, a segunda maior rede de templos de umbanda do Rio de Janeiro. São oito casas espalhadas pelos subúrbios da Central do Brasil e Baixada Fluminense. Sua mesa reflete o seu sistema de trabalho. Nela, repousam três máquinas de escrever portáteis, nas quais ele registra dados dos médium sob a sua tutela. Jorge não gosta de computadores.

¿ Prefiro a minha Remington ¿ diz, apontando sua predileta.

É com antigas máquinas de escrever, ritos ainda secretos, pouca ou quase nenhuma organização que a umbanda e o candomblé resistem ao ataque de igrejas altamente motivadas, que fazem da conquista de adeptos dos cultos afro-brasileiros práticas justificadas teologicamente. Estas igrejas usam de técnicas modernas de marketing, treinam seus pastores-executivos para a expansão das igrejas, contam com canais próprios e alugados de televisão e rádio, e com representação aguerrida no Poder Legislativo.

¿ Na prática expansiva de uma das mais dinâmicas igrejas neopentecostais, fechar o maior número de terreiros existentes na área em que se instala um novo templo é meta que o pastor tem que cumprir ¿ afirma o professor Reginaldo Prandi, do Departamento de Sociologia da USP.