Título: MST E EXÉRCITO JUNTOS NO SUL
Autor:
Fonte: O Globo, 07/01/2005, O país, p. 4
Adão da Silva Souza, de 46 anos, operário da construção civil em Nova Santa Rita, na Grande Porto Alegre, não imaginava que, entrando num acampamento do MST, iria voltar rapidamente à sua área para ajudar na construção de auditórios com material alternativo no Fórum Social Mundial. E ao lado de soldados do Exército do Comando Militar do Sul que não estavam ali para vigiar o movimento, mas para se qualificar numa nova atividade profissional. O MST e o Exército foram convidados pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas do Pampa (Ipep) para ceder voluntários para a construção de oito auditórios e três salas que serão utilizados para os debates do Fórum Social Mundial, que ocorrerá na capital gaúcha de 26 a 31 deste mês.
¿ O que aparenta ser exótico, com acampados e soldados do Exército trabalhando juntos, é uma demonstração de que, congregando esforços, é possível oferecer alternativas para problemas graves que enfrentamos, por exemplo, na área de habitação ¿ explicou o coordenador executivo do Fórum Social Mundial 2005, Jéferson Miola.
Um grupo de 14 acampados do MST, procedente do acampamento Roseli Nunes, trabalhava ontem no projeto. Os auditórios estão a cargo do Ipep, ONG de Bagé, no sul do estado, que tem dado cursos de permacultura para o Exército em vários pontos do país. Essa tecnologia consiste no uso de material da região, como eucaliptos, na construção. As paredes são formadas por fardos de palha amarrados com arame e sustentados por bambus. Já o telhado, sustentado por toras de eucalipto, é forrado com polietileno de alta densidade (usado, por exemplo, em aterros sanitários), com uma camada de grama em cima. Os alicerces são feitos com pneus com terra dentro.
O Exército vem se interessando por esse tipo de trabalho em vários pontos do país, com o objetivo de utilizar a bioconstrução em programas humanitários, segundo o tenente-coronel José Nero Cândido Viana, chefe de Comunicação Social do Comando Militar do Sul.
¿ Pedi que o Exército participasse porque ele também tem uma função social. Temos que romper certos preconceitos, porque atrás da farda dos soldados e dos bonés do pessoal do MST também há cidadãos. Se pudéssemos utilizar a logística do Exército, poderíamos viabilizar muitos projetos de habitação, saneamento, alimentação e geração de energia em muitas áreas carentes do país ¿ diz João Rockett, do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Pampa.