Título: MEIRELLES: `POLÍTICA MONETÁRIA É MODERADA¿
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 10/01/2005, ECONOMIA, p. 15

Presidente do BC diz que país não cresceria se ações do governo fossem ortodoxas

BASILÉIA (Suíça). O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, classificou ontem de moderada a política monetária brasileira. Ele disse que, se a política fosse ortodoxa, como sustentam os críticos, a inflação teria ficado abaixo da meta, e o país não estaria crescendo tanto. Ele deixou claro que, em 2005, não haverá mudança de rumo:

¿ O Banco Central brasileiro, como todos os bancos centrais do mundo, particularmente os bem-sucedidos, age sempre com cautela. A política monetária brasileira é moderada. Se não, o Brasil não estaria crescendo como está. A inflação de 2004 mostra que a política monetária brasileira é extremamente equilibrada.

As declarações do presidente do BC foram dadas em Basiléia, após reunião no Banco de Compensações Internacionais (BIS), entre representantes de bancos centrais e bancos privados. Mesmo perguntado se achava moderados os 17,75% de juros ao ano, a taxa Selic que remunera grande parte dos títulos públicos no país, Meirelles afirmou que o determina se a política monetária é moderada, ou não, é a taxa de inflação e de crescimento:

¿ Esses dois indicadores mostram que a taxa de juros do país é a adequada para o Brasil, qualquer que seja ela.

Sobre se o Brasil não estaria na contramão de uma tendência mundial, já que vários países que tiveram suas moedas apreciadas baixaram juros, como Austrália ou Polônia, ele insistiu na defesa da política monetária brasileira, alegando que taxas de juros são influenciadas por diversos fatores, e não apenas por cotação da moeda. Em 2004, o dólar frente ao real perdeu 8% de seu valor:

¿ O que leva estes diversos países a adotarem esta política monetária são as pressões inflacionárias muito moderadas. No caso do Brasil, é o que está expresso na ata do Copom (Comitê de Política Monetária) ¿ disse Meirelles, esquivando-se do debate sobre juros.

Tranqüilidade quanto à economia mundial

O presidente do BC lembrou que o crescimento econômico de 5% no ano passado e os 4% previstos para este ano superam a média de menos de 2% que marcou o desempenho da economia brasileira entre 1990 e 2003. O aumento do investimento no país, segundo ele, é outro bom sinal:

¿ O investimento indica que o potencial de crescimento está aumentando. O Brasil deixou de ser assunto no cenário internacional, deixou de ser um problema.

Segundo Meirelles, os mercados não estão antecipando problemas para este ano. Se, no ano passado, havia grande temor em relação aos déficits gêmeos (comercial e fiscal) dos Estados Unidos, 2005 começou com o mercado mais tranqüilo diante da constatação de que a economia americana continua crescendo mais do que a da Europa e a do Japão:

¿ Apesar das preocupações com possíveis desequilíbrios, principalmente em relação ao dólar, a avaliação de risco embutida nos preços hoje é equilibrada.

Para o presidente do BC, o banco central americano tem feito um bom trabalho para que seus movimentos de juros sejam previsíveis, evitando, assim, surpreender o mercado. Segundo ele, mencionou-se na reunião que uma das razões para o fato de a economia mundial oferecer menos riscos é o ajuste feito por alguns países emergentes, particularmente, o Brasil.

¿ O fato de a economia brasileira estar mais equilibrada, com bons resultados no balanço de pagamentos, saldo comercial e de conta corrente, com total da dívida externa sobre exportações caindo e endividamento público em relação ao PIB também, faz com que o Brasil contribua para que a economia mundial hoje esteja hoje num ambiente de risco menor.

O encontro do BIS termina amanhã.