Título: QUESTÃO REPUBLICANA
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 08/01/2005, O PAÍS, p. 4
Os tucanos costumam dizer que a imprensa tem muita condescendência com o governo, e que se o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fizesse metade do que Lula faz, seria crucificado pelas críticas. Pelo menos no caso presente, das férias dos amigos adolescentes do filho do presidente no Palácio da Alvorada, parece terem mesmo razão.
É claro que qualquer pai de família já recebeu em sua casa amigos dos filhos, e eles andam sempre em bando, embora desconfie que para sustentar 16 amigos de uma só vez, só mesmo sendo milionário, ou pago pelo dinheiro público.
O presidente bem que poderia ter feito uma exceção e assumido as despesas da casa, excepcionalmente aumentada naqueles dias, mas esse é o problema menor. E é até mesmo engraçado ver nos fotologs os comentários deslumbrados dos garotos e das garotas naquela mordomia toda. A espontaneidade só reforça o fato de que foram mesmo dias excepcionais.
A questão de Estado, ou melhor, ¿republicana¿, como gostam de salientar os membros do governo Lula quando querem elogiar o espírito que dizem ter a atual administração, é usar avião da FAB para transportar os amigos, e a lancha que serve ao Palácio Alvorada para passeios turísticos no Lago Paranoá.
O uso da lancha está comprovado por uma das fotos, em que aparece ao fundo um marinheiro da tripulação. O uso do avião é uma presunção mais que óbvia, pois uma outra foto mostra o grupo posando em frente a um avião da FAB, na pista do aeroporto. Ninguém, a não ser que nunca tenha visto um avião na vida, posa em frente a um apenas pela recordação.
A Aeronáutica tem a obrigação de explicar por que um avião oficial foi colocado à disposição dos amigos do filho do presidente. Ainda mais porque várias autoridades de outros governos já foram processadas pelo Ministério Público pelo uso de avião oficial para férias com a família, processos esses provocados por denúncias de petistas.
Elio Gaspari, quando outro dia criticou a mordomia da casa do presidente da Câmara, o petista João Paulo Cunha, relembrou que ¿já houve tempo em que o vice-presidente da República (Café Filho, entre 1950 e 1954) presidia o Senado e morava no apartamento do primeiro andar do cruzamento de Nossa Senhora de Copacabana com Joaquim Nabuco¿.
Pois houve um tempo em que os políticos brasileiros eram assim, na maioria. A exceção era o contrário. Cresci ouvindo histórias de meu avô, Clodomir Cardoso, senador pelo PSD, que, quando nomeado interventor no Maranhão durante o Estado Novo, pagava do próprio bolso as despesas do Palácio dos Leões, só usando a verba pública em ocasiões oficiais.
O PT já foi chamado de ¿UDN de macacão¿ por Leonel Brizola, craque em colocar apelidos certeiros nos adversários. Durante mais de duas décadas, arvorou-se em reserva moral da nação, com o beneplácito da opinião pública, que reconhecia nele qualidades que, chegando ao poder, revelaram-se na maioria inexistentes. Apontava o dedo acusador para qualquer desvio, mesmo quando desvio comprovado não houvesse, mas mera suspeita.
Para os adversários, qualquer suspeita tornava-se culpa provada, enquanto hoje, mesmo os erros comprovados tornam-se meras suposições. A mistura do público com o privado tem sido recorrente no governo petista, desde questões triviais, como plantar uma estrela, símbolo do partido, num canteiro do Alvorada, até levar a cadelinha da família de um lado para o outro de carro oficial. Outras questões, mais complexas, envolvem os interesses financeiros do partido do governo.
O tesoureiro do partido, Delúbio Soares, já foi flagrado dentro do Palácio do Planalto conversando com um empreiteiro, e considerou-se normal esse livre trânsito. O Banco do Brasil comprou lugares em um show de música sertaneja em benefício do novo prédio da sede do PT, e tudo ficaria por isso mesmo se não fosse denunciado pela imprensa. Ninguém foi punido, mas pelo menos se desistiu momentaneamente de financiar o novo prédio com dinheiro público.
Quando, no início do ano, os jornais noticiaram que o governo estava comprando, entre outras coisas para o Palácio Alvorada, os hoje famosos 15 roupões de algodão ¿obrigatoriamente egípcio¿, foi uma surpresa. Estes ficarão simbolicamente ligados para sempre à imagem do ex-operário presidente, como exemplo de que chegar ao poder fez com que aceitasse mordomias que antes criticava.
Os gastos, muitas vezes exagerados, das residências oficiais, foram alvo de denúncias petistas por várias administrações, e foram eles mesmo que descobriram como usar o Sistema de Acompanhamento e Fiscalização ( Siafi) para as denúncias. Sistema que agora a oposição manobra com a mesma perícia, encontrando os mesmos exageros.
O começo do ano não está sendo bom para o governo na questão da simbologia ética, tão cara ao partido, e já há data marcada para mais um constrangimento: a chegada a Brasília do novo Airbus da Presidência da República, comprado por mais de US$55 milhões, depois de o PT ter empreendido durante anos campanhas vigorosas de denúncias contra a compra pelo governo anterior.
O próprio presidente Lula revelou recentemente que o ex-presidente Fernando Henrique ofereceu-se para comprá-lo antes de deixar o governo, para evitar constrangimentos ao novo governo. Candidamente, Lula disse que recusou porque não tinha idéia de que precisaria viajar tanto. Certamente pensava que Fernando Henrique viajava apenas porque gostava, e não pela necessidade do cargo que ocupava. Mais uma vez Lula só foi aprender a diferença depois de chegar lá.