Título: Um estilo
Autor: Ilimar Franco
Fonte: O Globo, 13/01/2005, Panorama político, p. 2
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se ontem por mais de uma hora com o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), e com o petista Virgílio Guimarães (MG). Durante a conversa, em nenhum momento o presidente pediu que Virgílio retirasse a sua candidatura avulsa à presidência da Câmara. Lula limitou-se a mostrar ao correligionário o quanto sua postura era inconveniente.
A atitude do presidente tem razões institucionais e pragmáticas. Lula não fez o pedido para não ser acusado de interferência e também para não ter que se comprometer com compensações futuras ao parlamentar que perder a disputa na bancada do PT. Esta não é a primeira vez que o presidente Lula, mesmo sendo contra alguma ação política, deixa que o próprio envolvido encontre uma saída, evitando ficar devendo um favor. Consta que, por mais apelos que tenha recebido, e mesmo fazendo reservas ao encaminhamento dado ao debate da emenda da reeleição, depois dela ter sido rejeitada em primeira votação na Câmara, Lula nunca pediu ao presidente João Paulo Cunha (PT-SP) que desistisse de tentar aprová-la.
O presidente também parece ter encontrado uma fórmula para evitar vazamentos da reforma ministerial em curso. Nas substituições de José Viegas, na Defesa, e Carlos Lessa, no BNDES, Lula trabalhou em silêncio, surpreendendo seus assessores mais próximos. Agora, Lula, segundo assessores palacianos, está fazendo consultas sobre as reformas e falando de seus planos, mas não o faz mais em reuniões coletivas, apenas em conversas individuais. O resultado prático é que os interlocutores ficam constrangidos em passar adiante as informações, pois, como não sabem o que Lula disse para outros integrantes do governo, temem deixar a impressão de que falam demais. A conseqüência disso é que não se sabe ainda que pasta ocupará o PP nem qual o novo ministério que será destinado ao PMDB. Em sua segunda reforma ministerial, o presidente Lula também parece ter encontrado um jeito para evitar que o pânico e a insegurança se espalhassem pela Esplanada dos Ministérios. Por isso, nas últimas semanas seus auxiliares martelam que a reforma será tópica, apenas para fazer acomodações políticas e ajustes administrativos.