Título: Gosto de sangue
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 13/01/2005, O país, p. 4

Definitivamente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso incorporou o espírito de Serjão, seu falecido amigo e ex-ministro Sérgio Motta, conhecido pelo ímpeto com que assumia as posições do governo. Passado o susto do princípio de incêndio no edifício em que fica seu Instituto ¿ o gerador que explodiu não afetou a parte dos documentos que é guardada no subsolo ¿ Fernando Henrique volta à política exigindo mais ¿ferocidade¿ de seu partido: ¿O PSDB não tem gosto de sangue na boca¿, resigna-se, sem esconder uma certa decepção pela maneira como os tucanos estão se conduzindo na oposição.

¿O PSDB tem que ter uma posição mais firme, tem que negociar. Eles vão logo dizendo que vão apoiar o Greenhalgh, mas a troco do quê?¿, pergunta Fernando Henrique, a respeito da decisão da direção nacional de seu partido de apoiar a candidatura oficial do PT à presidência da Câmara, o deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh.

No caso específico, o ex-presidente tem uma razão a mais para querer uma negociação pelo menos mais difícil: Greenhalgh fez uma representação contra ele, por crime de responsabilidade, por ter autorizado a instalação de um escritório do serviço secreto americano no Brasil, sem consultar o Congresso.

Tudo foi resolvido na ocasião, e Greenhalgh acha que essa é uma questão política superada, mas Fernando Henrique não esqueceu. O candidato oficial do PT, que conta com a amizade pessoal do prefeito José Serra e do secretário Aloysio Nunes Ferreira, já foi aconselhado a procurar o ex-presidente para uma conversa.

Na terça-feira, em reunião da executiva paulista do PSDB, Fernando Henrique relembrou a oposição ferrenha que sofreu do PT nos seus oito anos de governo e incentivou os tucanos a serem mais agressivos: ¿Eles fizeram o diabo, infâmias, uma atrás da outra. Não quero que se faça a mesma coisa, mas não é possível também ficar o tempo todo dizendo sim, senhor¿. Para o ex-presidente, o PFL tem sido mais agressivo na oposição. ¿O PSDB já entrega logo de cara. Deixa o outro lado absolutamente solto para fazer o que quiser. Já dão de barato que o PSDB vai se comportar by the book , segundo as regras. Tem que surpreender um pouco, não pode ser assim¿.

Fernando Henrique reconhece que José Serra, assumindo a prefeitura de São Paulo com tantas dívidas, precisa ter uma boa relação com o governo federal. Mas acha que essa é outra questão: ¿O que o PT fazia ? O Zeca do PT (governador do Mato Grosso), o Jorge Vianna (governador do Acre) e mesmo o Olívio Dutra (governador do Rio Grande do Sul) tinham excelentes relações comigo; e o PT, as piores¿, diz ele, sorrindo. Fernando Henrique tem orientado o PSDB no sentido de manter institucionalmente uma oposição mais aguerrida enquanto Serra e outros executivos que tiverem que se relacionar com o governo federal permanecem fora da linha de combate.

Por isso também ficou claro que, eleito prefeito, Serra teria que deixar a presidência do PSDB para que o vice-presidente, senador Eduardo Azeredo, cumpra o restante do mandato. Fernando Henrique acha que a partir da designação do novo presidente e dos líderes do partido na Câmara e no Senado, o PSDB terá condições de assumir mais fortemente a postura oposicionista feroz que considera necessária neste ano que será ¿essencialmente político¿.

A ferocidade nos ataques virá menos pelo lado do novo presidente, já que o senador Azeredo não tem o estilo político agressivo, mas pelos líderes. No Senado, continua Arthur Virgilio, a quem não é preciso pedir atitudes agressivas. Na Câmara, Fernando Henrique acha que o novo líder será o deputado federal paulista Alberto Goldman, que também tem um estilo combativo.

¿Esses é que têm que ser os porta-vozes de uma linha mais agressiva. Este ano que vem agora não é eleitoral, é político. Tem que fazer alianças, marcar posição¿, recomenda Fernando Henrique, que é presidente de honra do PSDB e assumiu a tarefa de orientar o partido na campanha eleitoral do próximo ano.

Segundo ele, o partido tem que marcar posição diante do eleitorado, e não precisa neste momento já ter o candidato à sucessão presidencial. ¿Mas o PSDB tem que parecer não só capaz de bater, mas, mais que isso, mostrar o que ele é, no que se diferencia do PT¿. Marcar mais fortemente essa posição é o seu desejo: ¿Líder de partido de oposição não pode ser macio. Eu fui líder do PMDB na oposição, o Sarney passava baixo comigo¿, afirmou, relembrando uma célebre frase que cunhou e que irritava muito o então presidente Sarney. ¿Lembra? Eu dizia `Viajou a crise¿¿, repete, com satisfação.

Fernando Henrique acha que o PSDB deixa passar muita coisa, que o governo ¿é um prato cheio para criticar¿ e os tucanos não fazem nada. ¿Sabe quantos processos eu tenho? Mais de 200, tudo besteira, de ação popular. Não quero que se repita assim, mas de vez em quando tem que cobrar.¿

Nem mesmo questões de família o PT deixou de lado, como o PSDB está fazendo agora, no caso das férias do filho do presidente Lula com um grupo de amigos no Palácio Alvorada. Fernando Henrique acha que cabia um questionamento mais forte do PSDB, assim como fez o PFL, se não pelo uso do Alvorada, pelo uso do avião oficial e da lancha da Presidência.

Como o PT agiu, denunciando diversas autoridades de seu governo por usar aviões da FAB para férias. Ou quando Fernando Henrique nomeou a filha Luciana sua secretária particular, com sala no Palácio do Planalto, e foi acusado de nepotismo pelo PT.