Título: É grave demais!
Autor: ALEXANDRE SAMPAIO DE ABREU
Fonte: O Globo, 14/01/2005, Opinião, p. 7

As pessoas sensatas sabem que a questão da segurança pública no Rio de Janeiro já passou do suportável há muito tempo. Há anos assistimos a uma escalada da violência e absorvemos como acontecimentos do cotidiano mortes por confronto ou bala perdida. A sociedade civil carioca se manifesta pela paz e contra a violência usando as armas possíveis: missas, passeatas, camisetas impressas com fotos de entes queridos que se foram. Essas manifestações ajudam a amadurecer o sentimento de inconformidade e convidam ao avanço como ocorreu ao final do ano com a publicação de um impressionante anúncio de três páginas assinado pelo Sistema Firjan; nele se pediu ao Brasil que ouça o grito do Rio.

O Sindicato de Hotéis, Restaurantes e Bares do Rio de Janeiro declara-se engajado nesta luta da sociedade carioca contra a violência. Nossa base conta com 18 mil estabelecimentos responsáveis por mais de 180 mil empregos diretos. Uma atividade importante para a alma carioca e com a legitimidade para falar sobre segurança pública de quem vive com as portas abertas para as ruas.

O anúncio ¿O Grito do Rio¿ tratou de pontos críticos. A deterioração da segurança é de fato fruto de décadas de omissão e conivência. Muitos trabalham contra a violência, é verdade. Mas, diz ¿O Grito do Rio¿, o esforço é insuficiente. Todos nós podemos recitar um rol de providências para reequilibrar a vida carioca. Educação, habitação, projetos de cultura. Mas as terapias sociais só produzem efeitos a médio e longo prazos e vivemos uma situação de emergência. O que fazer? Somamos a nossa voz à dos que lutam a favor da vida civilizada no Rio de Janeiro, a favor da nossa alegria de viver.

Há anos assistimos a uma dinâmica perversa.. Governos estaduais têm jurisdição para cuidar da segurança pública e fracassam; então reclamam da falta de apoio federal. Diante das dificuldades evidentes, a União faz de conta que não é com ela. Sem contar as conveniências políticas de parte a parte. Quem sofre é a nossa cidade, um patrimônio nacional de importância econômica, histórica e cultural.

De tempos em tempos surgem acenos de ações mais fortes no futuro. Mas isso é pouco: o que acontece a nossa volta é grave demais. Um capítulo a se destacar se refere ao chamado estado paralelo. O ex-presidente do IBGE, Sérgio Besserman Viana, dizia há tempos numa palestra: ¿Na violência urbana no Rio há uma questão inegociável: o conceito de nação é incompatível com a ocorrência de grupos armados fora do Estado controlando parcelas de nosso território.¿

O professor Demétrio Magnoli, em recente artigo, reforçou essa visão: ¿O Estado brasileiro cedeu o exercício da violência a gangues de traficantes que mantêm os moradores do morro como reféns de sua autoridade privada.¿ Pouco sabemos desse mundo: é a história de cidadãos brasileiros que vivem sob as ordens de bandos de malucos drogados e armados até os dentes.

Não cabe culpar este ou aquele governo estadual. Sejamos ecumênicos: todos falharam. Talvez o desafio esteja além da capacidade de manejo do governo estadual. E falharam os governos federais. O governo federal deve assumir suas responsabilidades. Não somos especialistas em direito constitucional nem cabe a um sindicato definir políticas de segurança. Somos democratas e trabalhadores de um ramo estratégico para a vida do Rio de Janeiro. Queremos um grande encontro entre representantes da sociedade civil ¿- que também tem a sua culpa ¿- com o mundo político para buscar um projeto compatível com esta crise. Não podemos almejar menos que o fim deste descalabro.

Quando a sociedade brasileira resolve, os resultados aparecem. Foi assim com a inflação. Foi assim com as diretas. Foi assim com Collor. Há de ser assim no resgate da dignidade de nossa cidade.