Título: Planejamento, um ministério que ninguém quer: só dá notícia ruim
Autor: Luiza Damé
Fonte: O Globo, 17/01/2005, O País, p. 4
Nas consultas à base aliada para a reforma ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu-se diante de um problema inesperado. Ninguém está interessado no Ministério do Planejamento, pasta hoje desprezada pelos partidos que apóiam o governo.
O cargo de ministro está vago desde novembro, quando Guido Mantega foi transferido para a presidência do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico do Social) e a tendência é que o ministro interino, o petista Nelson Machado, seja efetivado no cargo. A intenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva era usar a vaga para contemplar os aliados, mas viu a função ser rejeitada, por causa do perfil da pasta, encarregada de anunciar cortes no Orçamento da União e segurar a liberação das emendas dos parlamentares.
Último ministro politicamente forte foi Serra
Além disso, nos últimos tempos, o ministro do Planejamento transformou-se numa espécie de preposto do ministro da Fazenda. O último ministro do Planejamento politicamente forte foi o tucano José Serra, que polarizou na condução da política econômica com o então ministro da Fazenda, Pedro Malan. A partir de 1997, com a saída de Serra, os nomes escolhidos sempre foram afinados com o ministro da Fazenda. No governo Lula, a prática foi mantida: Mantega era um técnico discreto, que poderia até divergir de Antonio Palocci nos bastidores, mas em público evitava críticas à política econômica conduzida pelo colega.
Num cenário inicial da reforma ministerial, a senadora Roseana Sarney (PFL-MA) assumiria o comando do Ministério do Planejamento, que faz parte da área econômica. Esse arranjo não agradou ao grupo do presidente do Senado, José Sarney (PFL-AP), que prefere uma pasta com maior apelo popular. Além de administrar o Orçamento da União, o Planejamento cuida do funcionalismo federal ¿ que tem demonstrado insatisfação com o governo Lula por questões salariais. Estão vinculados ao ministério órgãos técnicos como o IBGE e o Ipea.
A vaga também já foi oferecida ao ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, mas recusada pelo PTB. Na semana retrasada, em reunião com Lula, o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson (RJ), deixou claro que o partido está satisfeito com o Turismo e não gostaria de trocá-lo pelo Planejamento. Além da composição política, Lula busca um nome que tenha o aval de Palocci. Segundo interlocutores do presidente, Ciro Gomes estaria disposto a trocar a Integração Nacional pelo Planejamento, mas Palocci não aceita esse arranjo. O ministro da Fazenda vetou inclusive o petista Ricardo Berzoini para o cargo.
Petistas querem que Machado seja efetivado
Setores do PT e do governo defendem a efetivação de Nelson Machado no Ministério do Planejamento. Filiado ao PT, Machado tem o perfil considerado ideal para o cargo: embora seja da corrente desenvolvimentista, oposta à política econômica de Palocci, é discreto e disciplinado. Ele foi para o governo a convite de Mantega, com quem trabalhou na Prefeitura de São Paulo na administração Luiza Erundina (1989/1993). Ao longo de sua militância petista, Machado não entrou em disputa por poder no partido e cultiva a marca de um técnico íntegro.
Bacharel em Direito pela Universidade de Brasília, ele tem mestrado em Administração Orçamentária e Financeira pela Fundação Getúlio Vargas e doutorado em Contabilidade e Controladoria pela Universidade de São Paulo (USP). Em São Paulo, trabalhou não só na prefeitura da capital, mas também no governo estadual, na gestão de Mário Covas (1995/2001), onde coordenou o Programa de Modernização do Controle Interno e Administração Financeira e dirigiu a Escola Fazendária do Estado.