Título: Queda gradual
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Fonte: O Globo, 18/01/2005, Opinião, p. 6

A inflação no Brasil registrou significativa queda no ano passado e ficou dentro das metas estabelecidas pelo governo, embora a conjuntura internacional tenha sido marcada por fortes altas nos preços do petróleo, de commodities agrícolas e insumos industriais. A queda da inflação em 2004 teve ainda mais relevância porque no ano a economia voltou a crescer, impulsionada por resultados fantásticos no comércio exterior.

A política monetária recebeu muitas críticas ¿ de fato não é nada salutar que o Brasil continue a conviver com uma das maiores taxas de juros reais entre as economias emergentes ¿ porém é necessário reconhecer que os objetivos foram alcançados, entre os quais a redução da dívida pública em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB).

Para 2005, o teto máximo para a inflação definido pelo governo é de 7%. De 2003 para 2004, a inflação recuou de 9,3% para 7,6%, medida pelo IPCA, índice do IBGE adotado pelo governo como parâmetro do regime de metas. Assim, de 2004 para 2005, a queda necessária é menor em termos absolutos, mas o esforço de redução será semelhante ao do ano passado, já que em termos relativos a variação se mantém.

A economia brasileira vem diminuindo o seu ritmo de crescimento (com reflexos negativos na criação de empregos formais) e no mercado internacional não há pressões inflacionárias no horizonte. O câmbio está acomodado e tudo indica que por aí não teremos grandes surpresas este ano, em função do bom desempenho das contas externas do país.

Assim, como merecedoras de um crédito de confiança em face dos resultados conquistados no ano passado, talvez as autoridades monetárias possam reavaliar a trajetória de ajuste para cima dos juros reais. Sem pôr em risco o alcance das metas de inflação, os dirigentes do Banco Central não podem desconsiderar em suas decisões o impacto dos juros sobre as finanças públicas.

A avaliação de risco da economia brasileira tem melhorado progressivamente, e desse modo existem condições favoráveis para se diminuir o custo da dívida, dentro de regras de mercado, que não devem ser desperdiçadas.