Título: Impasse
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Fonte: O Globo, 18/01/2005, Opinião, p. 6
O governo comemora as boas notícias vindas da economia. De fato, quem assumiu há dois anos num clima de grandes dúvidas e incertezas, merece aplausos por encerrar um exercício como 2004, quando o PIB deve ter crescido na faixa dos 5%, o comércio exterior obteve um saldo recorde de US$ 33 bilhões, tudo isso com a inflação sob controle.
Mas à medida que são divulgadas estatísticas sobre a execução orçamentária no ano passado, emerge de forma nítida um aspecto preocupante do governo Lula: o avanço sem controle dos gastos correntes não financeiros.
Há uma série de itens na relação de despesas oficiais que cresce a uma velocidade muito superior à da expansão da própria economia. Exemplos dados domingo pelo GLOBO: diárias pagas a servidores civis em viagem (mais 27,7%), passagens e despesas de locomoção (mais 25,5%), material de consumo (mais 29,4%). E não são itens desprezíveis. Apenas em viagens, exceto diárias, foi gasto meio bilhão de reais.
A folha de pessoal agrava o quadro. Além dos mais de 20 mil servidores terceirizados a serem contratados, prevêem-se outras 28 mil admissões para 2005. O que significa inchar a folha da União de forma irreversível, dadas as dificuldades para se demitir servidores. Apenas os aumentos já concedidos ao funcionalismo custarão R$ 9,2 bilhões este ano. Se considerarmos que os gastos ditos sociais também estão em alta, e que é crucial manter a política de acumulação de superávits primários, conclui-se ser impossível o governo cumprir a promessa de reduzir a já sufocante carga tributária. Bem como será impensável ampliar os investimentos públicos, dos quais áreas estratégicas da infra-estrutura carecem.
Está claro que em Brasília há quem confunda Estado forte com Estado perdulário e inchado de servidores. Mas o impasse se aproxima. No passado, era a inflação que ajudava os governos a fechar as contas ¿ da pior maneira possível, por óbvio. A alternativa saudável ¿ do controle dos gastos ¿ era sempre rejeitada por causa dos custos políticos. Em algum momento, o governo Lula terá de optar. E sem poder lançar mão de novos aumentos de impostos.