Título: A sabatina de Condoleezza
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Fonte: O Globo, 19/01/2005, O Mundo, p. 29
Ao ser sabatinada ontem durante horas pela Comissão de Relações Exteriores do Senado americano ¿ como parte do processo para ser confirmada no cargo de secretária de Estado no segundo governo de George W. Bush ¿ a conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, procurou afastar temores de um crescente isolacionismo de seu país: comprometeu-se a melhorar as relações dos EUA com o mundo por meio de uma diplomacia baseada no diálogo.
¿ Nossa interação com o resto do mundo precisa ser uma conversa, não um monólogo ¿ afirmou.
Se for confirmada no cargo, em substituição a Colin Powell, o que poderá acontecer hoje ou amanhã ¿ dia da posse de Bush ¿ Condoleezza vai se tornar, aos 50 anos, a primeira negra a chefiar a diplomacia dos EUA.
O democrata Joseph Biden foi o primeiro dos 18 senadores da comissão a atacar seus argumentos. Quando Condoleezza afirmou que é preciso ¿usar a diplomacia americana para criar um equilíbrio de poder no mundo que favoreça a liberdade¿ e que ¿a hora da diplomacia é agora¿, ele rebateu:
¿ O momento de atuar de maneira diplomática devia ter sido há mais tempo.
Biden recomendou ao governo que aprenda a atuar ¿não só com força, mas também com humildade¿. E acrescentou que os EUA ¿estão pagando um preço muito alto¿ por sua política no Iraque. Condoleezza não se abalou. Afirmou que suas ações serão guiadas pela convicção de que ¿nenhuma nação pode construir um mundo melhor e mais seguro sozinha¿.
Dura discussão com senadora democrata
Os senadores focalizaram principalmente a política dos EUA no Iraque. E um deles em especial demonstrou preocupação com as respostas de Rice: John Kerry, derrotado por Bush na eleição presidencial de novembro. A conselheira de Segurança disse que acontecimentos não previstos tornaram a missão no Iraque mais difícil do que o esperado. Um dos problemas, afirmou, foi o fato de aliados de Saddam Hussein terem se dispersado antes de as forças americanas avançarem, para se tornarem parte de uma insurgência obscura.
¿ Eles não ficaram para lutar ¿ afirmou.
Kerry procurou mostrar que essa possibilidade deveria ter sido levada em conta pelos EUA:
¿ Foi exatamente o que (os iraquianos) fizeram em 91 (na Guerra do Golfo) ¿ disse.
Já a senadora democrata Barbara Boxer se envolveu numa dura discussão com Condoleezza ao acusá-la de enganar os americanos por ter dito que Saddam representava uma ameaça ao mundo e tinha armas de destruição em massa, não encontradas.
¿ Não quero que as famílias daqueles 1.306 (soldados americanos mortos no Iraque) acreditem por um minuto que sua vidas foram dadas em vão, mas não vou me esquivar de questionar uma guerra que não foi construída sobre a verdade ¿ disse Boxer. ¿ Você os mandou lá por causa das armas de destruição em massa. Mais tarde a missão mudou quando elas não foram encontradas. Não vamos reescrever a História. É muito cedo para isso.
Condoleezza reagiu dizendo que ¿não eram apenas armas de destruição em massa¿. Afirmou que Saddam apoiava o terrorismo, atacara o Kuwait e Israel e precisava ser removido devido à nova percepção de ameaça aos EUA surgida após o 11 de Setembro. Acabou se vendo obrigada a defender sua honestidade:
¿ Podemos discutir isso da maneira que você quiser, mas realmente espero que você se prive de impugnar minha integridade. Realmente espero que você não indique que eu usei a verdade de maneira leve.
Condoleezza recorreu ao 11 de Setembro para assinalar que a liderança assumida por Bush após os atentados abriu uma oportunidade ¿para ajudar a criar um equilíbrio de poder no mundo que favoreça a liberdade¿. Mas se negou a estabelecer uma data para a saída das tropas americanas do Iraque, o que desagradou os senadores: disse que a possibilidade de isso acontecer é diretamente proporcional à capacidade das forças iraquianas de se defenderem dos terroristas. E admitiu que os iraquianos ainda não estão preparados. Quando disse que o Iraque tem 120 mil soldados, o senador Biden rebateu, afirmando que não passam de quatro mil.
Condoleezza assegurou que os EUA continuarão trabalhando com o Brasil para avançar na criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).