Título: PAIS QUEREM MAIS RIGOR NA ESCOLA PÚBLICA
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Fonte: O Globo, 20/01/2005, O País, p. 10
Os alunos da rede pública aprendem menos do que deveriam e saem da escola sabendo muito menos do que seus colegas da rede particular. É o que dizem pais de estudantes de 1ª a 8ª série de escolas públicas em cinco capitais, uma delas o Rio, ouvidos em pesquisa qualitativa do Ministério da Educação (MEC). Eles criticaram a aprovação automática, com a substituição de provas por trabalhos em grupo, os novos métodos de ensino e o sistema de avaliação em que o aluno passa de ano independentemente do aprendizado.
A visão dos pais sobre o ensino fundamental e público está retratada na Pesquisa Nacional Qualidade da Educação - a Escola Pública na Opinião dos Pais, divulgada ontem pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
O ministro da Educação, Tarso Genro, deu razão aos pais de alunos:
¿ A percepção dos pais é totalmente correta. Vem confirmar o que dizemos: houve nos últimos anos positiva expansão quantitativa, mas com prejuízo da qualidade. É isso que o MEC quer atacar em parceria com governadores e prefeitos.
Foram ouvidos cerca de cem pais, mães ou responsáveis com pelo menos dois filhos matriculados em escolas de Belém, Recife, Brasília, Rio e Curitiba. Seu maior desejo é que os filhos consigam entrar na universidade pública e sigam uma carreira que lhes garanta ¿tratamento de doutor¿.
Como é uma pesquisa qualitativa, realizada apenas com dez grupos de cerca de dez pais e mães em cinco capitais, os resultados não representam necessariamente o que pensam os pais de todo o Brasil. Mas dão pistas importantes, diz o presidente do Inep, Eliezer Pacheco:
¿ Algumas críticas dos pais reproduzem a educação mais conservadora que tiveram.
A pesquisa ajudará o MEC a formular políticas que aumentem a participação dos pais na vida escolar. Avaliações mostram que o desempenho do aluno cresce com o envolvimento dos pais com a vida escolar.
Segunda etapa da pesquisa ouvirá dez mil pais
O levantamento foi feito em dezembro e serviu de base para os questionários da segunda etapa da pesquisa, desta vez quantitativa e iniciada ontem. Até fevereiro, o Inep ouvirá dez mil pais em 162 municípios, buscando confirmar ou não os resultados do estudo qualitativo.
De modo geral, os pais rejeitam novos métodos de avaliação, que privilegiam trabalhos em grupo ou individuais e dão mais peso à freqüência escolar. Eles reclamam da falta de provas e aulas expositivas e cobram rigor na avaliação, condenando a aprovação automática.
¿ Nem no meio acadêmico há consenso sobre os melhores métodos de ensino. O que os pais estão querendo dizer é que os filhos estão aprendendo menos. Há uma preocupação com a queda de qualidade da educação básica brasileira ¿ disse o diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Carlos Henrique Araújo.
Os pais demonstram satisfação, porém, com o acesso ao ensino fundamental e dizem valorizar a escola pública e gratuita. Eles condenam as greves e a tolerância com faltas ao trabalho, regalias e privilégios associados à imagem do funcionalismo público. Também admitem participar pouco da vida escolar dos filhos e alegam falta de tempo por causa do trabalho.