Título: Empresários e sindicalistas fazem coro ao classificar alta de lamentável
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Fonte: O Globo, 20/01/2005, Economia, p. 30

Lamentável, desanimador e uma ducha de água fria. Assim empresários e sindicalistas reagiram à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reajustar novamente, em 0,5 ponto percentual, a taxa Selic, agora em 18,25% ao ano. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo Fiesp), Paulo Skaf, acusa o governo de não conter seus gastos e valer-se do ¿imposto dos juros¿ para tirar dinheiro da sociedade para financiar seu aumento nos gastos.

Skaf lembrou que, de janeiro a novembro de 2004, em relação a igual período de 2003, enquanto a receita da União cresceu 9,9%, os gastos aumentaram 11,7%.

¿ O Copom perdeu excelente oportunidade de estimular a economia e renovar o ânimo de quem produz e trabalha no sentido de fazer de 2005 um ano bom para a economia ¿ afirmou Skaf. ¿ Sem falar de que a alta de juros atrai apenas capitais especulativos para o país, causando a queda do dólar e prejudicando nossas exportações.

Para o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), o Copom caminha na direção contrária à recuperação da economia e tem-se valido de informações pouco confiáveis para tomar decisões sobre os juros.

¿ Achamos que o caminho é o diálogo, e por isso o Ciesp sugere que o BC confira as informações e os números em que se baseia para aumentar os juros com fontes fidedignas dos vários setores produtivos ¿ disse o diretor do Departamento Econômico do Fiesp, Boris Tabacof.

Fecomércio-RJ vê prejuízo à recuperação de investimentos

A Associação Brasileira da Indústria de Base e Infra-Estrutura (Abdib) considera preocupante a escalada da Selic.

¿ As autoridades monetárias precisam ter um plano de médio prazo, com medidas alternativas, para controlar indícios inflacionários, sem que isso cause tanta insatisfação e indecisão junto aos consumidores e às empresas em geral ¿ afirmou o presidente da Abdib, Paulo Godoy.

Para o presidente da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), Orlando Diniz, ¿a insistência na contínua elevação dos juros básicos da economia contraria qualquer proposta de recuperação dos investimentos futuros, necessários para o almejado crescimento sustentado do país¿. Em nota, Diniz afirmou que a elevação do IPCA de 2004 se deveu a choques externos, como a alta dos preços do petróleo, não havendo pressão inflacionária originada pela demanda no país.

Já o presidente da Fecomércio-SP, Abram Szajmam, classificou o novo aumento da Selic de injustificável.

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, disse que é desanimador começar o ano constatando que as autoridades econômicas se mantêm insensíveis às reais necessidades do país.

¿ Ao dar continuidade à elevação dos juros, o Copom joga um balde de água fria em todos aqueles que há muito desejam que o Brasil tenha um desenvolvimento econômico vigoroso, de longo prazo, com distribuição de renda e inclusão social ¿ disse Marinho. ¿ Mais que metas inflacionárias, o país precisa adotar uma política econômica voltada ao estabelecimento de metas sociais.

O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, disse que com a decisão de ontem do Copom o governo dá um presente aos especuladores e pune o setor produtivo:

¿ Essa receita extremamente conservadora do BC coloca uma trava no crescimento sustentável, no aumento da produção, no consumo e na geração de postos de trabalho.

O aumento da Selic foi um equívoco também na opinião de Antonio Correa de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet). Para ele, os juros no país já estão muito elevados.

¿ Foi uma alta desnecessária, que terá um impacto negativo sobre os investimentos no setor produtivo e vai encarecer a dívida pública. Além disso, ela vai apreciar ainda mais o real em relação ao dólar, prejudicando as exportações ¿ disse Lacerda.

CNI: expansão deve ser menor já no primeiro trimestre

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou nota na qual considera que a elevação da taxa e a perspectiva de sua manutenção em patamares elevados por um longo período prejudicam a continuidade do crescimento econômico e inibem o ciclo de investimento que se inicia no país.

Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, o ritmo de crescimento econômico deve cair já no primeiro trimestre deste ano. Após um aumento de pelo menos 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004, o Brasil deve ter um crescimento menor com as cinco elevações consecutivas desde setembro passado:

¿ Agora já é possível dizer que vamos ter um crescimento menor em 2005 e até aquém das estimativas, que apontavam crescimento em torno de 3,5% a 4%.