Título: UM GUARANÁ ALARANJADO
Autor:
Fonte: O Globo, 23/01/2005, Economia, p. 34
Nem mesmo produtos brasileiríssimos fogem da sanha copiadora da China: eles podem ser vistos ou comprados pelas ruas das principais cidades do país asiático. Em Pequim, por exemplo, os orelhões tipicamente brasileiros estão em cada esquina e, em alguns locais, pode-se comprar um guaraná em lata quase idêntico ao da Antarctica. Ambos são fabricados pelo grupo empresarial chinês Lida.
Até o fim do ano, o grupo tinha um site na internet, hoje substituído pela página de um fabricante de fios de poliéster de mesmo nome que alega nada ter a ver com a outra empresa. Os dois telefones da fábrica de refrigerantes da Lida, localizada no distrito industrial de Huai Bei Gong Ye Qu, distante cerca de uma hora e meia do centro de Pequim, não atendem, mas as latas continuam a exibir os dois números.
O venezuelano Daniel Aldana ¿ que é casado com uma brasileira e morou durante 15 anos no Brasil antes de vir para a China ¿ afirma que foi o consultor que fez a ponte entre a Lida e uma pequena fabricante de refrigerantes de São Paulo que produz guaraná e exportou a tecnologia para os chineses.
¿ Nunca fui sócio da Lida e apenas apresentei os empresários chineses aos brasileiros da tubaína Camp. Ajudei assessorando o negócio. Nada sei a respeito da estratégia de fabricação e marketing do produto na China ¿ diz ele.
Pode ser, mas o fato é que as embalagens do guaraná Lida são muito parecidas com as do guaraná da Antarctica, tanto na cor quanto no logotipo. O produto, nem tanto. Tem mesmo gosto de tubaína e a cor tende ao alaranjado. No Brasil, a AmBev, fabricante do guaraná Antarctica verdadeiro, informou que já tem conhecimento da falsificação e que o Departamento Jurídico da empresa está tomando as ¿providências legais¿.
Quanto à versão chinesa dos orelhões brasileiros, a Telemar diz que não apenas ela como outras empresas do setor no Brasil usam a estrutura arredondada para cobrir os telefones públicos em várias cidades porque o design é de domínio público. Um dos fabricantes de orelhões no Brasil, a Fibrasmar, diz que as peças produzidas nunca foram exportadas.
Mais curiosa é a história do café brasileiro vendido para a China pelo grupo Bourbon Specialty Coffees Ltda., de Poços de Caldas, Minas Gerais. Gabriel de Carvalho Dias, terceira geração no comando da empresa, decidiu torrar e exportar o produto, da marca Specialle, em 2000:
¿ Em 2003, fomos contactados pelo grupo Guangzhou King Long Trading, de Guangzhou, no Sul da China, interessado em importar o nosso café torrado e em grão. Fizemos dois embarques, o último em julho daquele ano. E qual não foi minha surpresa quando, em fevereiro do ano passado, recebi um e-mail de Zita Lou, dona de um bar em Guangzhou, dizendo que as últimas entregas feitas pelo King Long tinham uma embalagem diferente das anteriores e que o gosto e aroma do café eram muito inferiores ao dos primeiros embarques ¿ conta Dias. ¿ Eu disse a ela que não exportávamos para a China fazia oito meses.
Dias descobriu que o grupo havia copiado sua marca e estava vendendo outro café para seus clientes dentro da embalagem pirateada do Specialle. Na nova embalagem, os chineses tiveram o cuidado de retirar todos os contatos. Mas Zitga Lou tinha a embalagem antiga do café brasileiro e decidiu enviar um e-mail a Gabriel Dias.
¿ Entramos em contato com o King Long, mas eles não nos responderam. Nem tomei qualquer medida judicial ¿ afirmou Dias.
A falta de iniciativa na defesa da marca na China, diz o advogado Edward Lehman, do escritório especializado em patentes Lehman, Lee & Xu, estimula a pirataria no país.
¿ As empresas se satisfazem com os ganhos de escala que um mercado deste tamanho permite, até descobrir que sua marca, apenas copiada no início, foi canibalizada pelo concorrente ¿ afirma o advogado.