Título: INCIDENTE COM HARRY REFORÇA ANTIMONARQUISMO
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Fonte: O Globo, 23/01/2005, O Mundo, p. 42

Quaisquer que tenham sido os motivos que o levaram a comparecer a uma festa vestindo um uniforme nazista, com suástica e tudo, o príncipe Harry não deve ter imaginado que sua atitude se transformaria em preciosa munição para os opositores da monarquia no Reino Unido e mesmo na Europa. O continente em que sete dos 15 principais países ainda são regidos por esse sistema político ¿ ainda que reis e rainhas tenham poderes muito mais limitados do que seus poderosos antepassados ¿ nos últimos anos tem presenciado um debate crescente sobre a relevância da monarquia em tempos em que posa como alternativa democrática para o imperialismo dos EUA.

Não deixa de ser contraditório que esses países hoje tenham o direito de escolher apenas seu chefe de governo, não de Estado. Há ainda quem questione os privilégios reservados às famílias reais, especialmente os subsídios financiados pelo dinheiro público. No caso britânico, por exemplo, a rainha Elizabeth II e seus agregados recebem anualmente o equivalente a R$250 milhões, ainda que ela tenha uma fortuna avaliada em quase R$30 bilhões.

¿ Não quero entrar no mérito da situação de Harry, ainda que muita gente se irrite com o fato de ele viver em festas e bebedeiras quando deveria agir como alguém que é o terceiro na linha de sucessão ao trono. O problema é ter um chefe de Estado que se vale de direitos divinos e hereditários em pleno século XXI ¿ queixa-se Graham Smith, coordenador da campanha ¿Republic¿, que tenta reunir assinaturas para pressionar o Parlamento a considerar um plebiscito sobre o sistema.

Na Espanha, um casamento de conto de fadas

Na última semana, o parlamentar Jonathan Sayeed, do partido conservador, apresentou um projeto de lei sob o qual a Câmara dos Comuns teria o poder de escolher o sucessor de Elizabeth II em meio às alternativas na família real. A rainha também se vê às voltas com a insatisfação em ex-colônias, como Canadá e Austrália, que ainda têm a soberana como chefe de Estado.

Mesmo países, cujas casas reais nem de longe apresentam a mesma tendência a aprontar confusão como os colegas britânicos, contam com campanhas questionando a monarquia. Até na Holanda, cuja família real não desfruta de privilégios como isenção fiscal e tem muitos de seus integrantes secundários trabalhando como meros plebeus, tem gente insatisfeita.

¿ Quem vê de fora adora saber que a rainha Beatrix anda a pé pelas ruas de Haia e faz compras sozinha no mercado, mas a família real holandesa é essencialmente uma instituição supérfula, um parasita sem função social, além de reforçar a idéia reacionária de que as pessoas são obrigadas a respeitar algum tipo de autoridade natural ¿ diz um porta-voz do Comodo, organização antimonarquista com sede em Amsterdã.

Mas todo esse lobby esbarra no fato de que, pelo menos de acordo com pesquisas, a monarquia ainda goza de algum prestígio. No Reino Unido, o índice de aprovação beira os 80%. E em outros países, como Suécia e Dinamarca, a oposição à monarquia acaba fragmentada diante do comportamento relativamente ordeiro de sua nobreza.

Mesmo a efervescente Espanha mantém-se simpática aos Bourbon, em especial ao rei Juan Carlos I, símbolo da redemocratização do país após a ditadura do general Franco ¿ sem falar que, no ano passado, o casamento do príncipe Felipe parou o país, com jeito de conto de fadas. No principado de Mônaco, súditos aceitam a solteirice do herdeiro do trono, o príncipe Albert, por mais danos que sua vida de playboy possa causar à linha de sucessão.

Mas nem tudo são flores. No caso britânico, por exemplo, há quem acredite que tal situação será diferente quando a rainha morrer ou abdicar, até porque o príncipe Charles, o primeiro na linha de sucessão, nem de longe tem a popularidade da mãe. Uma recente enquete realizada pelo instituto de pesquisas Mori revelou que apenas 47% dos britânicos gostariam de manter a monarquia após a saída de Elizabeth II, hoje com 78 anos.