Título: Resultado, não prazos, é o que importa
Autor:
Fonte: O Globo, 26/01/2005, O Mundo, p. 28

O debate sobre o Iraque está tomando um novo rumo. As eleições iraquianas marcadas para o dia 30, recentemente vistas como o ponto culminante de uma guerra civil, agora são descritas como o começo dela. O momento e a organização da votação se tornaram polêmicas. Todas estas são formas de prenunciar a exigência para uma saída estratégica, através do qual muitos críticos pedem algum tipo de prazo para o esforço americano.

Nós rejeitamos este conselho. As implicações do termo ¿saída estratégica¿ devem ser claramente compreendidas, não se pode negligenciar as conseqüências. O pré-requisito essencial para uma saída estratégica aceitável é um resultado sustentável, não um prazo arbitrário. Os resultados alcançados no Iraque moldarão a próxima década da política externa americana. Um fracasso abriria a possibilidade de convulsões na região uma vez que radicais e fundamentalistas se tornariam dominantes. Onde quer que haja populações majoritariamente muçulmanas, elementos radicais seriam encorajados. Uma retirada americana precipitada tornaria praticamente certa uma guerra civil que tornaria a da Iugoslávia algo pequena em comparação, e seria alimentada pelo fato de países vizinhos transformarem seu atual envolvimento numa intervenção total.

Devemos a nós mesmos ser transparentes sobre qual resultado da eleição é compatível com nossos valores e com a segurança global. E devemos aos iraquianos nos esforçar para que possamos promover sua capacidade de moldar seu futuro.

A parte mecânica de parte do sucesso é relativamente fácil de definir: estabelecer um governo considerado suficientemente legítimo pelo povo iraquiano para permitir um Exército capaz e disposto a defender suas instituições. O objetivo não pode ser apressado por um prazo arbitrariamente marcado que confundiria tantos aliados quanto adversários. Os esforços políticos e militares não podem ser separados. Treinar um exército num vácuo político provou ser insuficiente. Caso não possamos cumprir tanto as tarefas políticas quanto militares, não conseguiremos cumprir qualquer uma delas.

Mas o que é tal governo? Otimistas crêem que uma armadura completa de instituições democráticas ocidentais podem ser criadas num período de tempo que os EUA sustentarão. A realidade provavelmente desapontará quem tem tais expectativas. O Iraque é uma sociedade despedaçada por séculos de conflitos religiosos e étnicos, tem pouca ou nenhuma experiência com instituições representativas. O desafio é definir objetivos políticos que, mesmo quando não chegarem a seu total cumprimento, representarão um progresso significativo e conseguirão apoio dos vários grupos étnicos. As eleições devem ser interpretadas como uma indispensável primeira fase de evolução política de uma ocupação militar para a legitimidade política.

A Assembléia Constituinte que surgirá das eleições será de certa forma soberana. Mas a influência dos EUA deverá se concentrar em quatro objetivos-chave: 1) Evitar que qualquer grupo use o processo político para estabelecer o tipo de domínio antigamente exercido pelos sunitas. 2) Evitar que qualquer área caia em condições como as do Talibã, santuários e centros de recrutamento de terroristas. 3) Impedir que o governo xiita se torne uma teocracia, iraniana ou nativa. 4) Manter espaço para autonomia regional dentro do processo democrático.

Os EUA têm todo o interesse em conduzir um diálogo com todos os partidos para encorajar o surgimento de uma liderança secular de nacionalistas e representantes regionais. O resultado da Constituição deve ser uma federação, com ênfase na autonomia regional. Qualquer grupo pressionando além deste limite deve ser levado a compreender as conseqüências de uma dissolução do Estado iraquiano em partes, que incluiriam um sul dominado pelo Irã, um centro islamita-baathista e sunita e a invasão da região curda por seus vizinhos.

Uma saída estratégica baseada nos acontecimentos, não em prazos artificiais, julgará o processo pela habilidade de produzir respostas positivas para estas questões. No futuro imediato, uma porção significativa do esforço anti-rebelião terá de ser feito pelos EUA. Uma mudança prematura de operações de combate para missões de treinamento pode criar uma lacuna que permita a rebelião aumentar sua força. Mas no momento em que as forças iraquianas aumentarem seus números e sua capacidade, e a construção politica continuar após as eleições, uma saída estratégica realista surgirá.

Não há fórmula mágica para uma saída rápida e não-catastrófica. Mas há a obrigação de fazermos o máximo para conseguir um resultado que marcará um grande passo na guerra contra o terror, na transformação do Oriente Médio e na direção de uma ordem mundial mais pacífica e democrática.