Título: OS DOIS MUNDOS
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Fonte: O Globo, 26/01/2005, O País, p. 4

Tanto o Fórum Econômico Mundial quanto o Social Mundial, que começam amanhã em Davos, na Suíça, e em Porto Alegre, respectivamente, fizeram pesquisas de opinião para saber o que seus participantes consideram as prioridades para o futuro próximo. O interessante é ver como as prioridades de cada grupo, antes de ser excludentes, são similares e se complementam.

Educação e acesso à água são os temas prioritários para a construção de ¿um novo mundo¿, lema do Fórum Social. Já os participantes do Fórum Econômico consideraram que o mais importante é erradicar a fome e ajudar os países em desenvolvimento.

Uma terceira pesquisa, realizada em todo o mundo pelo Instituto Gallup com cidadãos comuns, sob encomenda do Fórum de Davos, colocou o combate ao terrorismo entre as prioridades para este ano, refletindo a preocupação com o tema que prevalece nos Estados Unidos e Europa.

A pesquisa do Fórum Social foi realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), sob a coordenação do Secretariado Internacional do Fórum, durante a quarta versão do Fórum em Mumbai, na Índia, em janeiro de 2004, e ouviu 3.500 participantes. A definição clara de temas como educação e acesso à água como prioritários fez com que o diretor do Ibase Cândido Grzybowski festejasse ¿contornos mais definidos¿ nas reivindicações sociais do Fórum

Essa definição maior, de certa maneira, viria atender a uma reclamação do presidente Lula, um dos ícones do Fórum Social Mundial que, recentemente, criticou a organização do encontro por uma perda de foco que identificava. Lula chegou a dizer que o Fórum se transformara em uma ¿feira ideológica¿, onde qualquer um vendia qualquer idéia.

Os cinco temas que obtiveram as maiores médias nas respostas sobre as prioridades sociais para o futuro, com seus desdobramentos, foram: educação (escola, acesso ao conhecimento); água (acesso, direito, qualidade); direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais; erradicação da fome ; e combate à pobreza.

Foi feito também um estudo com o objetivo de traçar um perfil dos participantes, e nele ficou patente que o encontro de Porto Alegre ¿precisa ainda ganhar em globalidade e representatividade social¿. Dos 71 mil delegados inscritos em Mumbai (o total de participantes, que inclui observadores e acampados, chegou a 115 mil de 106 diferentes países), nada menos que 91% eram de indianos e de países vizinhos. Do restante do mundo, a brasileira foi a maior delegação, com 854 pessoas, seguido por Estados Unidos (772) e França (661).

Houve também a acentuação de uma tendência à elitização, que já fora detectada nos encontros anteriores. Na Índia, 63% dos participantes possuíam grau superior completo ou mais, contra 37% em Porto Alegre. Outro fator destacado pelos pesquisadores é a baixa presença de representantes da África (1% dos participantes), continente que deverá sediar a sétima edição do encontro, em 2007. Na Índia, 84,5% dos participantes não eram filiados a partidos políticos (em Porto Alegre, em 2003, esse índice foi de 63%); 60,4% integram movimentos sociais (índice parecido com o obtido no Brasil em 2003, 64,9%).

O perfil do participante é predominantemente jovem: na Índia, 63% tinham entre 14 e 34 anos (índice parecido com o do Fórum de Porto Alegre, 62%). O fortalecimento da mobilização da sociedade civil é o principal caminho apontado para a ¿construção de outro mundo¿, segundo a pesquisa do Ibase.

Já o Fórum Econômico Mundial, que este ano tem como lema ¿Assumindo responsabilidades por escolhas difíceis¿, preparou duas pesquisas com o Instituto Gallup International. Em uma delas, 60 mil pessoas em 50 países responderam a uma série de perguntas para definir a que acham que seus líderes devem dedicar esforços nos próximos anos.

Essa pesquisa representa o ponto de vista de 1,2 bilhão de cidadãos de todo o mundo. Na outra, as mesmas perguntas foram feitas para mais de dois mil líderes internacionais, de empresários a políticos, representantes da sociedade civil, academia e mídia. Os dois grupos colocaram a erradicação da pobreza e ajuda aos pobres como prioridades.

O que chamou a atenção dos organizadores do Fórum Econômico é que 27% dos cidadãos apontaram a guerra contra o terrorismo, e temas similares como ¿redução do perigo de guerra e conflitos¿ como prioritários. Dois outros temas também ganharam destaque: encorajar o crescimento econômico ou melhorar a economia mundial. Esses dois últimos constam claramente como se fossem correlatos ao fim das guerras, ou seja, na percepção dos cidadãos, um equilíbrio maior entre ricos e pobres faz com que o mundo fique mais pacífico.

O Fórum Econômico Mundial terá este ano a participação de mais de 2.250 pessoas de 96 diferentes países, e há contas para todos os gostos para reafirmar o prestígio do encontro. A começar pelo número de chefes de Estado ou de governo que estarão presentes: cerca de 20, entre eles o presidente Lula. E dois deles abrirão o Fórum: o presidente da França, Jacques Chirac, fará uma saudação especial na abertura, e o primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, falará na abertura oficial, na qualidade de presidente do G-8.

O fundador e presidente executivo do Fórum, Klaus Schwab, diz que o encontro desse ano está se realizando num ¿momento crucial do mundo¿, pois estarão presentes personagens que representam ¿inúmeros novos começos¿ em perspectiva: da nova presidência da Comissão Européia (o português Manoel Durão Barroso), à eleição do novo presidente da Autoridade Palestina (Mahmoud Abbas) ao novo líder da Ucrânia ( Viktor Yushchenko). Schwab diz que todos os líderes estarão em Davos para tentar encontrar meios de fazer com que o mundo venha a ser ¿o que ele deveria ser¿. Uma maneira diferente de dizer que ¿um outro mundo é possível¿, lema do Fórum Social.