Título: Pobreza como bandeira
Autor: Merval Pereira
Fonte: O Globo, 27/01/2005, O País, p. 4
A erradicação da pobreza foi escolhida como a questão mais urgente a ser enfrentada pelo mundo por cerca de 65% dos líderes reunidos aqui, na abertura do Fórum Econômico Mundial, e em segundo lugar ficou a necessidade de a globalização se processar de maneira mais equilibrada, a fim de que a distância entre países ricos e pobres não seja tão grande como atualmente.
Um ambiente propício, portanto, à presença do presidente Lula, que se orgulha de ser dos poucos líderes mundiais que pode comparecer tanto ao Fórum Mundial Social ¿ do qual o PT é um dos fundadores ¿ quanto ao Fórum Econômico Mundial, onde estará a partir de amanhã, pela segunda vez desde que assumiu.
E este ano Lula tem mais razão ainda para comparecer: em ambos os Fóruns, seu tema recorrente, o combate à pobreza, é destaque. Paradoxalmente, enquanto em Porto Alegre o presidente Lula enfrenta a possibilidade de protestos, é no Fórum suíço que o tema da pobreza ganhou mais destaque entre as prioridades. Hoje, na abertura aqui em Davos, o presidente francês Jacques Chirac defendeu mais uma vez a criação de uma taxa internacional para financiar o combate à pobreza.
O tema mostra-se prioritário tanto para os empresários e líderes mundiais quanto para a opinião pública internacional, de acordo com pesquisa realizada em 60 países pelo Instituto Gallup International. A tal ponto que o combate à pobreza, que já entrara para a relação dos 12 ¿temas difíceis¿ que serão a base das discussões no Fórum Econômico, hoje foi eleito como o mais importante deles.
Já no Fórum Social Mundial, o presidente Lula será o convidado de honra no lançamento, hoje, da campanha ¿Chamada global para a ação contra a pobreza¿, coordenada por uma coalizão formada por mais de 100 redes de ONGs de todo o mundo. Hoje, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com menos de US$ 1 ao dia, segundo levantamentos da ONU.
Segundo os coordenadores do movimento, o objetivo das organizações é pressionar governos e instituições a atacarem as causas da pobreza e cumprirem suas metas para a eliminação do problema. A campanha, cujo símbolo será a cor branca, terá quatro focos principais: anulação das dívidas externas; comércio justo; novas formas de financiamento e aumento da cooperação internacional. 2005 pode ser um ano-chave no tratamento do assunto, pois em julho reúne-se o G-8, conferência dos países com as sete maiores economias do mundo mais a Rússia, cujo foco será a pobreza mundial. E em setembro a conferência da ONU discutirá as Metas do Milênio, entre as quais se encontra a redução da pobreza mundial.
Na verdade, o governo brasileiro tentou, com o programa Fome Zero, liderar uma campanha de erradicação da fome no mundo, que o presidente Lula levou a vários fóruns internacionais, inclusive à reunião do G-8. A campanha focalizada contra a fome perdeu força internamente diante da pesquisa do IBGE que mostrou que esse não é um problema brasileiro generalizado, mas localizado em alguns bolsões. E mostrou-se inviável em termos de financiamento internacional, da maneira como Lula propôs inicialmente: uma taxação sobre a venda de armas, que não foi levada em conta nos fóruns internacionais.
Mas, a partir da união com a França, a Espanha, e o Chile, o combate à pobreza mundial tomou vulto, e novas formas de financiamento estão sendo sugeridas, como fez ontem o presidente francês, que não apóia a taxação sobre vendas de armas, por motivos óbvios, mas defende outros tipos de taxação com o mesmo objetivo.
Hoje, o próprio Lula já fala mais genericamente em ¿combate à pobreza¿, que englobaria a erradicação da fome. Num dos painéis de Davos, amanhã, será discutido o financiamento das campanhas contra a pobreza no mundo. Dele participarão o fundador da Microsoft, Bill Gates, o economista Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, e alguns ministros de Estado. Se chegar a tempo, o presidente Lula pode participar desse painel.
Em Davos, o presidente Lula fará uma palestra amanhã, no principal auditório do encontro, sobre as relações dos países em desenvolvimento e a possibilidade de essa cooperação alterar o balanço do poder internacional. À noite, Lula será o único chefe de Estado a participar da tradicional jantar ibero-americano, que todos os anos reúne os principais representantes de países da região presentes ao Fórum Internacional.
Este ano, o presidente brasileiro estará acompanhado de cinco ministros: Celso Amorim, das Relações Exteriores, terá reuniões com seus pares para discutir o comércio internacional. O ministro Furlan, do Desenvolvimento, participará de uma mesa redonda onde serão discutidas as perspectivas de futuro da América Latina. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, participará de dois debates: um, sobre a dívida pública dos países em desenvolvimento, e outro sobre as perspectivas da economia brasileira.
O chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, participarão de reuniões com investidores internacionais. O tema principal será as Parcerias Público-Privadas. As PPPs, por sinal, serão tema de um painel especial no Fórum Econômico com a participação de representantes de empreiteiras internacionais, ONGs e autoridades de países que já adotam o modelo.