Título: Visão do BC
Autor: Miriam Leitão
Fonte: O Globo, 27/01/2005, Panorama Econômico, p. 22
Pessoas que pensam diferente em tudo têm, nos últimos tempos, concordado num ponto: os juros estão altos demais no Brasil e os possíveis benefícios que podem trazer estão sendo superados, em larga medida, pelos prejuízos. A visão que os dirigentes do BC têm é oposta: argumentam que um país que cresceu 5% em 2004 e fechou com uma inflação perto do teto da meta, em altíssimos 7,6%, não está com política monetária apertada. Pelo contrário.
A visão que eles têm lá é que os indícios na economia estão negando, na prática, o que dizem os críticos. Uma economia que cresce acima da sua média histórica recente e em que se tem que fazer esforço para segurar a inflação é porque não está com política monetária apertada. Afirmam que política monetária é uma área do conhecimento econômico que teve uma evolução importante recente e que essa evolução nem sempre está nas considerações dos críticos.
A grande dúvida é por que um país como o Brasil, com juros nominais e reais entre os mais altos do mundo, pode estar com inflação de 7,6% e crescimento de 5%?
No Banco Central, a explicação é que a estrutura do crédito no Brasil criou várias faixas de crédito com taxas de juros muito menores do que a taxa básica praticada pelo BC.
Um deles ¿ e o mais conhecido ¿ é o dos empréstimos do BNDES. Grandes empresas estão pagando não a taxa básica, não as taxas de mercado, mas os juros da TJLP, que são muito mais baixos. Quando se financiam no exterior, estão pagando juros internacionais, que caíram bastante nos empréstimos para empresas brasileiras desde que o risco-país despencou em 2003. Isso faz com que a taxa média das empresas brasileiras seja bem mais baixa do que se imagine. O total do crédito direcionado seria de 40% do crédito brasileiro. E, mesmo quando estão pagando CDI, nos empréstimos, as empresas estão se beneficiando da queda do spread sobre a taxa CDI.
Existem ainda outras fontes de crédito com juros menores que a Selic, como os financiamentos habitacionais e os créditos para a agricultura. É verdade, mas é preciso levar em conta que empresas pequenas, que não têm dinheiro do BNDES, nem captam no exterior, têm que pagar o custo escorchante dos juros atuais do mercado brasileiro.
O Banco Central argumenta que não apenas a taxa para as empresas caiu, mas são bem menores hoje também os juros para a pessoa física pela criação, no atual governo, do mecanismo de crédito consignado em folha. No caso de pessoas físicas, elas estão usando o dinheiro, em parte, para sair do cheque especial, aumentando a renda disponível. Isso porque deixam de pagar taxas de 8,5% ou mais por mês para pagar de 2% a 2,5%, o que é ainda alto, mas reduz o custo financeiro.
Isso ajuda a entender por que uma economia, com juros tão altos, continua crescendo, na visão do Banco Central. Mas, olhando por outro lado o mesmo problema, é preciso levar em conta a distância entre fato e conseqüência no mercado financeiro. Essa taxa de crescimento do ano passado foi construída, em parte, pela queda de 10 pontos percentuais na taxa Selic durante 2003 e 2004. E o que houve nos últimos cinco meses foi o movimento na direção contrária que vai afetar a economia mais adiante.
Afirma-se, no Banco Central, que não é a taxa de juros que explica a queda do dólar, mas todo o movimento internacional do câmbio e a melhora dos fundamentos da economia brasileira. O Brasil tem hoje uma situação econômica bem melhor do que no passado recente, em termos de indicadores como dívida/PIB ou balanço de transações correntes. Tudo isso que o Banco Central diz em conversas ou em documentos divulgados explica parte do fenômeno, mas não explica tudo.
O país melhorou seus fundamentos, mas juros altos produzem, inevitavelmente, o efeito de valorizar a moeda. E isso é jogar gasolina no fogo da fraqueza mundial do dólar. Se alguns segmentos pagam menos de juros, isso pode explicar parte do crescimento, mas todo preço é pago por alguém. Se a empresa não paga, o governo paga porque Selic é o preço com o qual ele remunera os títulos que vende ao mercado. E a dívida/PIB caiu por efeito de vários eventos, muitos dos quais não vão se repetir, como a mudança no câmbio: o real não terá a valorização que teve entre 2003 e 2004, até porque a moeda estava voltando de um valor exageradamente depreciado. O crescimento ajudou a dívida/PIB a cair, por significar o aumento de um dos fatores da conta, mas o problema é que uma das razões do crescimento foi o gasto público. O governo aumentou seus gastos correntes e suas despesas não financeiras. Isso sempre tem efeitos no crescimento, mas não é a melhor forma de crescer por ser insustentável e ter também efeitos nocivos.
O Brasil é um país meio jabuticaba onde os fatos econômicos freqüentemente contrariam as teorias, mas crescer de forma sustentada com uma taxa de juro real de dois dígitos nenhum país consegue, mesmo o mais original deles. Pode crescer e parar. O perigo é esse.
O ÍNDICE de expectativa do consumidor da Fecomércio-RJ de janeiro ficou, pelo sétimo mês consecutivo, acima da linha de otimismo. Ligeiramente menor que o de dezembro, ele é 10,6% maior que o de janeiro de 2004.