Título: SOB VAIA E APLAUSO, LULA DEFENDE GOVERNO NO FSM
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Fonte: O Globo, 28/01/2005, Economia, p. 23
O Fórum Social Mundial recebeu ontem com vaias e aplausos um de seus maiores líderes políticos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sempre fora ovacionado no encontro. A hostilidade de alguns grupos provocou a reação do presidente, que seguiu ontem para Davos, na Suíça. Lula respondeu já estar calejado pelas vaias, típicas dos movimentos sociais em que ele mesmo se formou. E ainda tentou explicar aos ativistas estrangeiros que os manifestantes são frutos de seu partido, que um dia os receberá de volta, como filhos pródigos.
Cerca de 7.000 integrantes do PT e da CUT, comandados por seus presidentes nacionais, José Genoino e Luiz Marinho, respectivamente, tentaram evitar os protestos. Vestindo camisetas vermelhas com a inscrição ¿100% Lula¿, que sobraram da campanha eleitoral, eles madrugaram para ocupar os principais lugares do Ginásio do Gigantinho, onde Lula discursou, no lançamento da Chamada Global para a Ação Contra a Pobreza. Ficaram com a maior parte dos 12 mil lugares e o movimento whiteband (bandeira branca) que simboliza a Chamada Global deu lugar ao vermelho petista e cutista.
Os ativistas que queriam protestar perto de Lula, ficaram do lado de fora do ginásio, muitos sem a credencial do FSM, que garantia acesso após longas filas. Mesmo assim, cerca de 60 manifestantes driblaram o esquema. Divididos em dois grupos, vaiaram Lula diversas vezes e o chamaram de traidor e fascista, exibindo fotos do presidente apertando a mão de George W. Bush. Outros, mais discretos, como os integrantes do Instituto de Estudos Socioeconômicos, distribuíam folhetos aos estrangeiros, falando sobre as contradições do governo.
¿ Os de fora não se assustem. Esses que não querem ouvir são filhos do PT que se rebelaram, é próprio da juventude. Um dia amadurecerão e à casa retornarão. Estaremos de braços abertos para recebê-los ¿ respondeu Lula aos grupos que o vaiavam, enquanto fazia um balanço de sua política internacional e de sua disposição para fazer mudanças.
Lula reclamou da torcida contrária e fez um desabafo:
¿ Perdi três eleições para ganhar uma. Ganhei uma eleição, mas o que tem de urucubaca torcendo para a gente não dar certo, tenho que levantar de figa todo dia para dizer: `pelo amor de Deus¿.
Ele frisou, em seu discurso de improviso, que durou 35 minutos, sua origem operária e sua formação política de militante de esquerda:
¿ Este barulho que vocês estão ouvindo agora eu ouço desde 1975, meus ouvidos já estão calejados. Eu, de vez em quando, vejo isso como uma harmonia gostosa, como parte da democracia, é um gesto democrático feito pela boca daqueles que não tem paciência para ouvir a verdade.
Na hora em que foi sabatinado pelas ONGs da Chamada Global, porém, Lula foi evasivo. No final, disse:
¿ Só tenho mais dois anos (de governo) e não posso ficar me lamentando.
No encerramento, o mediador Cândido Grzybowski explicou que a Chamada Global fará ¿muita pressão¿ sobre os governantes. Lula o interrompeu para lembrar que o evento seria encerrado com uma apresentação da bateria da Portela, cujo tema deste carnaval são as Metas do Milênio (inseridas na Chamada Global), e cujo samba-enredo fala da esperança de mudanças.
¿ Quero que vocês ouçam e decorem a letra ¿ disse Lula, para uma platéia reduzida.
Em seguida, Lula beijou a bandeira da escola de samba. Estavam presentes os ministros Olívio Dutra (Cidades), Marina Silva (Meio Ambiente), Tarso Genro (Educação), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário), Gilberto Gil (Cultura), Dilma Rousseff (Minas e Energia), Luiz Dulci (Secretaria Geral), Nilmário Miranda (Secretaria Especial dos Direitos Humanos), Nilcéa Freire (Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) e Matilde Ribeiro (Promoção da Igualdade Racial). Genoino e Marinho lideraram de perto suas claques para garantir aplausos ao presidente.
Na defesa de sua política externa, Lula criticou pelo menos três vezes o governo Fernando Henrique. Ele não citou o ex-presidente nominalmente, mas falou do governo anterior, que ¿ficou de costas para a América do Sul e a África, segundo Lula:
¿ Quem é que acreditava aqui no nosso continente, que em apenas dois anos, países que não se conversavam, e posso falar do Brasil, que viveu o tempo inteiro olhando para a Europa e para os Estados Unidos, de costas para a América do Sul e de costas para a África. Graças a uma política externa arrojada e propositiva, nós assinamos há menos de um mês a criação da Comunidade Latinoamericana de Nações. Todos os países da América do Sul tinham uma subordinação ao mundo desenvolvido.
Ele voltou a citar indiretamente Fernando Henrique ao afirmar que, quando terminar o mandato, voltará para casa, em vez de sair do país.
¿ Quando terminar meu mandato não vou para a França nem para os EUA fazer pós-graduação. Quando eu terminar meu mandato, vou voltar para São Bernardo do Campo para conviver com meus companheiros metalúrgicos.